Por Carolina Sessa
Na minha visita ao Web Summit Rio, um dos maiores eventos de tecnologia e inovação da América Latina, saí com uma sensação clara: estamos presenciando uma transformação silenciosa — mas profunda — no modo como pensamos, desenvolvemos e consumimos produtos financeiros. A combinação de inteligência artificial, novas infraestruturas de pagamento e integração com o cotidiano está moldando um novo cenário para o futuro das fintechs e dos produtos digitais.
O fim do “super app”? O começo do “banco invisível”
Durante o painel AI and Banking, um questionamento instigante surgiu: e se o futuro do banco não envolver sequer abrir um aplicativo?
A ideia de uma experiência bancária invisível está ganhando força com:
• Pagamentos realizados por comandos de voz ou imagem, diretamente no WhatsApp.
• Assistentes automatizados resolvendo mais de 90% dos atendimentos.
• Serviços financeiros integrados ao dia a dia do usuário, sem a necessidade de “ir até o banco”.
Esse movimento não significa o fim dos apps, mas sim o início de uma nova era: o banco vai até o cliente — e não o contrário. Para quem desenvolve produtos digitais, essa visão exige repensar completamente os pontos de contato, priorizando jornadas mais fluidas, integradas e contextuais.
Pix: mais que um meio de pagamento, uma infraestrutura de futuro
O painel com João Del Valle, CEO da EBANX, trouxe dados impressionantes: em 2024, R$ 4,6 trilhões foram movimentados via Pix.
Mais do que volume, o Pix revela o potencial de inclusão financeira e eficiência em larga escala. Com a chegada do Pix Automático, espera-se uma aceleração ainda maior nos pagamentos recorrentes, como contas e assinaturas.
Para o desenvolvimento de produtos digitais, o Pix não é apenas uma feature, mas sim uma infraestrutura estratégica, que possibilita modelos de negócio antes inviáveis. Além disso, a integração regional via iniciativas como o Projeto Nexus e o uso crescente de stablecoins apontam para uma América Latina mais conectada — e interoperável.
Neobanks: além da disrupção, vem a consolidação
O painel Beyond Disruption com Fernando Miranda, CEO da Neon, trouxe uma lição valiosa para quem trabalha com portfólio de produtos: neobanks de produto único tendem a fracassar.
Com os clientes buscando concentrar suas finanças em 2 a 3 instituições confiáveis, construir um ecossistema completo (conta, crédito, seguros, investimentos) é vital para gerar retenção, reduzir churn e melhorar monetização.
A Neon, por exemplo, direciona:
• 70% dos recursos para fortalecer o core (cartões, crédito, etc.),
• 20-30% para apostas em oportunidades adjacentes,
• 10% em “moonshots” — como o uso experimental de IA.
Esse equilíbrio entre foco e inovação é um aprendizado importante para qualquer roadmap de produto.
IA em Fintechs: automação básica ou transformação real?
No painel “AI in fintech: breakthrough or basic automation?”, exploramos os reais impactos da IA. A personalização e a previsão de comportamentos são apenas a ponta do iceberg.
Nos bastidores, a IA está revolucionando:
• A análise de crédito com modelos probabilísticos,
• O desenvolvimento de software,
• O marketing orientado por dados,
• E a capacidade de operar mesmo com dados escassos — como no agro.
Mas com grandes poderes vêm grandes responsabilidades: monitoramento contínuo para evitar vieses e garantir acesso justo ao crédito é essencial. A junção de IA com Open Finance no Brasil abre oportunidades inéditas para construir ecossistemas financeiros realmente inteligentes e inclusivos.
Para quem constrói tecnologia, essa é a hora de sair do óbvio e imaginar: como seria um produto que o cliente nem percebe que está usando — mas que resolve exatamente o que ele precisa?



