Estudo aponta que ampliar o acesso à testagem preventiva é estratégia custo-efetiva e pode salvar milhares de vidas
Um estudo técnico conduzido pelo Grupo DNA, especializado em medicina genômica, sugere que a testagem preventiva para variantes genéticas associadas ao câncer de mama pode evitar até 2 mil casos da doença por milhão de mulheres no Brasil. A pesquisa propõe que o rastreamento genético em larga escala, especialmente dos genes BRCA1 e BRCA2, seja incorporado como política pública de saúde para reduzir a incidência da doença e ampliar as chances de diagnóstico precoce.
Segundo o levantamento, a abordagem atual – que limita a testagem a mulheres com histórico familiar de câncer – é insuficiente e deixa milhares de brasileiras em situação de risco. Ao adotar uma estratégia de testagem universal a partir dos 30 anos, o país poderia evitar não apenas mortes, mas também tratamentos agressivos e de alto custo, especialmente nos casos detectados tardiamente.
“O que a ciência nos mostra com clareza é que testar apenas quem tem histórico familiar deixa milhares de mulheres vulneráveis. Nosso papel como empresa é transformar esse conhecimento técnico em impacto real, propondo soluções que sejam viáveis, sustentáveis e que salvem vidas”, afirma Rodrigo Matheucchi, CEO do Grupo DNA.
A lógica por trás da testagem universal
O estudo reuniu dados de fontes nacionais e internacionais, incluindo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicações científicas e diretrizes da NCCN (EUA) e da ESMO (Europa), além de análises econômicas e casuísticas brasileiras com mais de 2.400 pacientes testadas entre 2015 e 2017.
De acordo com os dados, enquanto 13% das mulheres da população geral desenvolverão câncer de mama ao longo da vida, esse percentual salta para mais de 60% entre aquelas que possuem mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2.
O custo-efetividade da testagem populacional foi avaliado com base no indicador QALY (Quality-Adjusted Life Year), utilizado globalmente para mensurar a relação entre o custo de um tratamento e os anos de vida ajustados pela qualidade. O modelo apresentou um ICER (Incremental Cost-Effectiveness Ratio) de R$ 11.900,31 por QALY, bem abaixo do limite de R$ 25 mil adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o que indica alta viabilidade econômica da proposta.
Diagnóstico precoce muda o destino das pacientes
Um dos pilares da argumentação favorável à testagem em massa é o impacto que o diagnóstico precoce exerce sobre a taxa de sobrevida das pacientes. O levantamento mostra que mulheres diagnosticadas ainda no estágio I da doença têm uma chance de 96,84% de sobreviver por pelo menos cinco anos. Já entre aquelas que descobrem o câncer em estágios mais avançados, esse percentual cai para 70,48%.
Além disso, a detecção precoce também reduz significativamente a necessidade de quimioterapia, especialmente entre mulheres com mais de 50 anos, com uma estimativa de queda de até 59,8%. Isso não só representa economia para o sistema de saúde como melhora a qualidade de vida das pacientes, reduzindo os efeitos colaterais físicos e emocionais de tratamentos agressivos.
Impacto direto no SUS e nas políticas públicas
Embora o estudo tenha contemplado cenários de saúde suplementar, a análise se debruça especialmente sobre a aplicabilidade da testagem no Sistema Único de Saúde (SUS), onde a limitação de recursos e a alta demanda tornam as decisões de custo-efetividade ainda mais críticas.
Para o Grupo DNA, a queda nos custos dos testes genéticos e o avanço das tecnologias preditivas tornam o momento oportuno para uma virada no modelo de rastreamento oncológico no país.
“O Brasil tem hoje um desafio, mas também uma enorme oportunidade. Com a queda no custo dos testes genéticos e o avanço das tecnologias preditivas, podemos criar um modelo de rastreamento que antecipa a doença, reduz internações, evita tratamentos agressivos e impacta positivamente o futuro de famílias inteiras”, reforça Matheucchi.
Inclusão e equidade no acesso
Outro ponto enfatizado no relatório é a importância de garantir equidade no acesso aos testes genéticos. O Grupo DNA defende que a implementação dessa estratégia deve priorizar não apenas grandes centros urbanos, mas também regiões periféricas e populações mais vulneráveis, incluindo mulheres jovens, negras, indígenas e outros grupos sub-representados nos programas de rastreamento atuais.
A ampliação do acesso ao aconselhamento genético também é vista como parte crucial da equação, tanto para interpretação adequada dos resultados quanto para suporte emocional e clínico das pacientes.
O papel da genética na prevenção de doenças
O movimento por testagens genéticas preventivas se insere em um contexto mais amplo de transformações na medicina, em que a prevenção e a personalização ganham destaque frente à lógica tradicional de tratamento reativo.
Variações nos genes BRCA1 e BRCA2 são conhecidas por aumentar drasticamente o risco de câncer de mama e ovário, mas o avanço da genômica tem possibilitado rastrear outras mutações ligadas a doenças complexas, como os cânceres colorretal, pancreático e de próstata, além de condições cardíacas e neurológicas.
O estudo realizado pelo Grupo DNA reforça que políticas públicas baseadas em genômica podem representar não só um avanço científico, mas também um salto de eficiência nos sistemas de saúde.
Caminho para o futuro
A proposta de incorporar a testagem genética de forma ampla e estruturada no Brasil encontra respaldo técnico, econômico e clínico. Contudo, para que se torne realidade, depende da articulação entre sociedade civil, setor privado, academia e gestores públicos.
A discussão sobre políticas de rastreamento genético populacional já avança em países como Canadá, Reino Unido e Israel, onde iniciativas similares têm demonstrado resultados expressivos em termos de prevenção e sustentabilidade do sistema de saúde.
O relatório do Grupo DNA, ao trazer uma análise detalhada do cenário brasileiro, pretende colaborar com esse debate e provocar uma reavaliação das prioridades em saúde pública, com foco na prevenção, na equidade e no impacto de longo prazo.



