Organização humanitária cobra acesso ao lenacapavir, considerado avanço histórico na prevenção do vírus, enquanto milhões seguem em risco no mundo
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) fez um apelo público à farmacêutica Gilead Sciences após a empresa se recusar a vender o lenacapavir, um medicamento considerado revolucionário na prevenção do HIV. Em carta aberta enviada nesta segunda-feira, 30 de março, a organização pede que o acesso ao fármaco seja ampliado com urgência, especialmente para populações vulneráveis atendidas por seus programas em diferentes países.
O lenacapavir é apontado como um dos avanços mais significativos das últimas décadas no combate ao HIV por sua capacidade de atuar como profilaxia pré-exposição (PrEP) de longa duração. Administrado por injeção apenas duas vezes ao ano, o medicamento pode facilitar a adesão ao tratamento e ampliar a proteção em contextos onde o uso diário de remédios é inviável.
Apelo por acesso em meio a cenário alarmante
De acordo com dados citados pela MSF, cerca de 1,3 milhão de pessoas são infectadas pelo HIV todos os anos no mundo, o que reforça a necessidade de ampliar o acesso a ferramentas eficazes de prevenção.
A organização atua diretamente com populações em situação de maior vulnerabilidade, como homens que fazem sexo com homens, pessoas transgênero e profissionais do sexo, além de operar em regiões de conflito e contextos frágeis, onde o acesso contínuo a tratamentos é limitado.
Nesse cenário, medicamentos de longa duração como o lenacapavir são considerados estratégicos para salvar vidas.
Recusa da Gilead gera críticas
Apesar de afirmar publicamente que tem capacidade de expandir a produção do medicamento, a Gilead se recusou a atender aos pedidos da MSF para a compra de uma quantidade limitada do lenacapavir destinada a seus programas humanitários.
A empresa orientou a organização a buscar o medicamento por meio do Fundo Global, mecanismo internacional que financia ações de combate a doenças como HIV, tuberculose e malária. No entanto, o próprio fundo enfrenta limitações significativas de oferta.
Atualmente, o fornecimento previsto cobre até 2 milhões de pessoas ao longo de três anos — número considerado insuficiente diante da demanda global. Além disso, apenas 18 países são elegíveis para adquirir o medicamento com preços reduzidos dentro desse acordo.
Exclusão de países e impacto global
Um dos principais pontos de crítica levantados pela MSF é a exclusão de diversos países, especialmente na América Latina e em regiões de renda média, do acesso facilitado ao medicamento.
Muitos dos locais onde a organização atua não estão incluídos nas condições estabelecidas pela Gilead, o que impede o acesso ao tratamento mesmo em situações de alta vulnerabilidade.
“Impedir que organizações humanitárias tenham acesso a um avanço médico coloca pessoas vulneráveis em perigo”, afirmou o Dr. Tom Ellman, diretor da Unidade Médica da África Austral da MSF. “A Gilead precisa decidir se prioriza a proteção das pessoas ou a manutenção de controle e lucro.”
O especialista também fez um paralelo histórico com a década de 1990, quando medicamentos antirretrovirais eram amplamente disponíveis em países ricos, enquanto regiões mais pobres enfrentavam restrições de acesso.
“Isso é uma repetição assustadora das políticas que vimos na década de 1990, quando os antirretrovirais eram disponibilizados para quem vivia no Norte global, enquanto o restante do mundo tinha o acesso negado e muitas vidas foram perdidas para o HIV/AIDS”, completou.
Situação no Brasil
No Brasil, embora a MSF não tenha projetos ativos relacionados ao HIV, a organização destaca a importância de garantir o acesso ao lenacapavir para a população.
O medicamento foi aprovado pela Anvisa em janeiro deste ano, mas ainda não está disponível no país.
O principal entrave é o preço elevado. Nos Estados Unidos, o custo anual do tratamento chega a cerca de US$ 28 mil (aproximadamente R$ 150 mil), valor considerado inviável para ampla adoção em sistemas públicos de saúde.
Em contraste, fabricantes de medicamentos genéricos na Índia afirmam ser possível produzir versões por cerca de US$ 40 por ano, o que evidencia a disparidade de preços e levanta questionamentos sobre acesso e políticas de patente.
Desafios para o SUS
A incorporação do lenacapavir pelo Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta obstáculos relacionados tanto ao custo quanto à disponibilidade do medicamento.
O Brasil também foi excluído do acordo que permite a aquisição por meio do Fundo Global, o que limita ainda mais as alternativas de acesso.
Diante desse cenário, especialistas e organizações apontam a necessidade de o governo brasileiro avaliar medidas previstas na legislação para viabilizar o acesso ao medicamento, incluindo mecanismos como licenciamento compulsório em casos de interesse público.
Pressão por negociação
A MSF solicitou uma reunião urgente com a Gilead até o dia 13 de abril, com o objetivo de discutir a possibilidade de fornecimento direto do medicamento, além de negociar preços e prazos para distribuição.
A expectativa da organização é que a farmacêutica reveja sua posição e amplie o acesso ao lenacapavir, especialmente em regiões onde o risco de infecção pelo HIV permanece elevado.
Debate sobre acesso a medicamentos
O caso reacende um debate recorrente no setor de saúde global: o equilíbrio entre inovação farmacêutica, propriedade intelectual e acesso a medicamentos.
De um lado, empresas argumentam que os altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento justificam os preços e o controle sobre a distribuição. De outro, organizações humanitárias defendem que avanços médicos devem ser acessíveis, especialmente quando envolvem doenças de grande impacto global.
A discussão ganha ainda mais relevância diante de tecnologias inovadoras como o lenacapavir, que têm potencial de transformar a prevenção de doenças, mas cuja distribuição ainda enfrenta barreiras significativas.
Um impasse com impacto direto na saúde global
A recusa da Gilead em fornecer o medicamento à MSF evidencia os desafios estruturais do acesso à saúde em escala global.
Enquanto a tecnologia avança e novas soluções surgem, milhões de pessoas continuam sem acesso a tratamentos que podem prevenir infecções e salvar vidas.
O desfecho das negociações entre a organização humanitária e a farmacêutica poderá influenciar não apenas o acesso ao lenacapavir, mas também futuras políticas relacionadas à distribuição de medicamentos inovadores.




