Decisões judiciais passam a reconhecer impacto emocional e obrigam cobertura de tratamentos, fortalecendo direitos de pacientes com endometriose
O entendimento do Judiciário brasileiro sobre casos envolvendo endometriose e planos de saúde tem evoluído de forma significativa, ampliando o direito das pacientes ao tratamento adequado e à reparação por danos morais. Decisões recentes têm determinado não apenas o custeio de procedimentos indicados por médicos, mas também o pagamento de indenizações quando há negativa indevida de cobertura, especialmente diante do agravamento do quadro clínico e psicológico das mulheres afetadas.
De acordo com a advogada Rosângela Maria de Almeida, coordenadora jurídica da Montañés Albuquerque Advogados, essa mudança representa um marco importante na forma como a Justiça analisa esse tipo de situação. “Hoje, a negativa de cobertura não é mais vista apenas como uma discussão contratual. O Judiciário entende que esse tipo de conduta pode intensificar o sofrimento físico e psicológico do paciente, o que justifica a reparação”, afirma.
Avanço nas decisões judiciais fortalece pacientes
A transformação no entendimento jurídico acompanha uma mudança mais ampla na percepção da endometriose, doença historicamente subdiagnosticada e cercada por estigmas. Agora, o Judiciário tem considerado não apenas os sintomas físicos, mas também os impactos na saúde mental e na vida profissional das pacientes.
Na prática, esse novo olhar tem resultado em decisões que obrigam operadoras de planos de saúde a custear cirurgias de alta complexidade, tratamentos de fertilidade e até procedimentos que não estão previstos expressamente no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Segundo Rosângela Maria de Almeida, o ponto central dessas decisões está na valorização da prescrição médica. “Uma vez que a doença tem cobertura contratual, o tratamento necessário não pode ser restringido. Essa é a lógica que vem sendo consolidada nos tribunais”, explica.
Outro aspecto relevante é o reconhecimento da incapacidade para o trabalho em casos mais graves. Mesmo quando laudos periciais são inconclusivos, a Justiça tem levado em consideração o conjunto de provas médicas, como relatórios particulares e histórico clínico, para conceder benefícios como o auxílio-doença.
Saúde mental ganha protagonismo nos processos
Um dos avanços mais expressivos está na inclusão da saúde mental nas análises judiciais. Casos que envolvem depressão, ansiedade e sofrimento psicológico associados à endometriose têm levado à revisão de decisões e à ampliação do entendimento sobre os direitos das pacientes.
“Não é mais possível dissociar o impacto físico do emocional. A dor crônica, a infertilidade e a demora no diagnóstico têm efeitos profundos, e isso começa a ser reconhecido pela Justiça”, destaca a advogada.
Esse reconhecimento tem sido determinante para a concessão de indenizações por danos morais, especialmente em situações em que a recusa do plano de saúde agrava o sofrimento da paciente ou compromete o tratamento adequado.
Informação ainda é desafio para pacientes
Apesar dos avanços, muitas mulheres ainda desconhecem seus direitos diante da negativa de cobertura por planos de saúde. Para especialistas, o acesso à informação é fundamental para que pacientes possam buscar o tratamento adequado e, quando necessário, recorrer ao Judiciário.
“Muitas mulheres ainda não sabem que podem questionar judicialmente a negativa de cobertura ou buscar reparação. O acesso à informação é fundamental para garantir direitos que já vêm sendo reconhecidos pelos tribunais”, afirma Rosângela Maria de Almeida.
Avanços legislativos caminham, mas enfrentam barreiras
No âmbito legislativo, também há movimentações para ampliar a proteção às mulheres com endometriose. Projetos em tramitação no Congresso Nacional buscam garantir maior acesso ao tratamento pelo sistema público de saúde e assegurar direitos relacionados à fertilidade.
Entretanto, essas iniciativas ainda enfrentam desafios, especialmente no que diz respeito à divisão de competências entre os entes federativos. Em alguns casos, propostas municipais têm sido barradas por questões constitucionais, o que dificulta a implementação de políticas públicas mais estruturadas.
“Existe uma mobilização crescente para ampliar a proteção às mulheres com endometriose, mas é essencial que essas políticas sejam construídas dentro dos limites legais para que tenham efetividade”, explica a especialista.
Tendência é de consolidação do entendimento
A expectativa é que o entendimento atual do Judiciário se consolide nos próximos anos, fortalecendo ainda mais os direitos das pacientes e reduzindo práticas abusivas por parte das operadoras de saúde.
Para Rosângela Maria de Almeida, o cenário aponta para uma transformação mais ampla. “O Judiciário tem assumido um papel importante ao reconhecer a complexidade da doença. O próximo passo é transformar esse avanço em políticas públicas consistentes, que reduzam a necessidade de judicialização e garantam acesso mais rápido ao tratamento”, conclui.
Sobre o escritório
A Montañés Albuquerque Advogados surgiu a partir da demanda de clientes que já reconheciam a atuação das profissionais ligadas à Cone Sul Marcas e Patentes, fundada em 1995. Com a reorganização do corpo jurídico, o escritório passou a atuar também em áreas como direito civil, trabalhista, empresarial e de família, ampliando seu campo de atuação no mercado jurídico.




