Especialista afirma que principal barreira para adoção efetiva da IA nas empresas não é tecnológica, mas cultural
A rápida expansão da inteligência artificial transformou o tema em prioridade absoluta dentro das empresas. Pressionados por investidores, conselhos administrativos e pelo próprio mercado, líderes corporativos passaram a tratar a IA como uma necessidade imediata para garantir competitividade e sobrevivência nos negócios. No entanto, apesar do avanço acelerado das ferramentas generativas, especialistas alertam que a adoção efetiva da tecnologia ainda esbarra em desafios estruturais e culturais.
Essa é a avaliação de Fernando Moulin, especialista em transformação digital e experiência do cliente. Em artigo recente, o executivo afirma que a inteligência artificial deixou rapidamente de ser uma promessa distante para se tornar uma exigência estratégica nas organizações.
Segundo Moulin, o avanço de plataformas como ChatGPT, Claude e Gemini criou um ambiente de urgência dentro das empresas. “A narrativa dominante parte de algumas premissas, como a de que se as companhias não se adaptarem vão ficar para trás”, destaca.
Apesar disso, ele aponta que existe um paradoxo na implementação da IA corporativa: enquanto a pressão externa exige velocidade, a realidade interna das empresas ainda é lenta e desigual no processo de adoção tecnológica.
Uso corporativo ainda enfrenta resistência
Embora milhões de usuários tenham aderido rapidamente às ferramentas de inteligência artificial generativa, o uso corporativo segue distante desse mesmo ritmo. Muitas empresas anunciaram projetos ligados à IA, criaram áreas dedicadas e passaram a incluir inovação em seus discursos institucionais. Porém, segundo Moulin, poucas conseguem transformar essas iniciativas em resultados concretos.
“O principal obstáculo para uma adoção mais consistente não é tecnológico, mas cultural”, afirma o especialista.
Pesquisas recentes citadas pelo executivo indicam que cerca de 80% das empresas que implementaram soluções de IA ainda não conseguiram ganhos relevantes de produtividade. Em alguns casos, o impacto foi contrário ao esperado, já que funcionários passaram a gastar mais tempo revisando e validando respostas produzidas por algoritmos.
O problema, segundo ele, está diretamente ligado à falta de preparo estrutural e de letramento digital dentro das organizações.
Medo de substituição alimenta insegurança
Outro fator apontado como barreira é o receio dos próprios profissionais diante da automação. Moulin destaca que muitos colaboradores evitam utilizar ferramentas de IA por medo de estarem contribuindo para sua própria substituição futura.
“Essa resistência não está necessariamente ligada à dificuldade técnica, mas ao medo”, explica.
Segundo o especialista, cabe à liderança criar um ambiente de segurança psicológica capaz de mostrar que a tecnologia deve funcionar como ampliação das capacidades humanas, e não apenas como mecanismo de substituição.
“Quando as pessoas entendem o propósito da tecnologia, a relação com ela muda. O medo dá lugar à experimentação, e a experimentação abre espaço para aprendizado”, afirma.
Estruturas antigas limitam transformação
Para Moulin, muitas empresas tentam encaixar soluções modernas em modelos de gestão ultrapassados. Organizações ainda operam com processos rígidos, culturas avessas ao risco e baixa abertura para inovação contínua.
Nesse cenário, a inteligência artificial acaba sendo utilizada apenas de forma superficial, sem promover mudanças estruturais reais.
“O resultado é previsível: iniciativas que consomem recursos, oneram processos, mas não entregam qualquer transformação real”, analisa.
O executivo destaca que empresas mais avançadas na adoção de IA possuem algumas características em comum. Entre elas estão ciclos curtos de aprendizado, testes rápidos, ajustes constantes e participação ativa dos colaboradores na construção das soluções.
Liderança ganha papel estratégico
Diante desse cenário, o papel da liderança torna-se ainda mais decisivo. Segundo Moulin, cabe aos líderes traduzir estratégias, definir prioridades e criar condições para que a tecnologia gere impacto concreto nos negócios.
Além disso, ele reforça a importância do exemplo vindo da alta gestão. Em muitas empresas tradicionais, os próprios executivos ainda possuem baixa maturidade digital, dificultando o avanço da transformação tecnológica.
“Superar essa barreira exige um esforço contínuo de capacitação, que envolva todos os níveis da organização e pressuponha a transformação inequívoca da alta liderança”, afirma.
Inteligência artificial deve resolver problemas reais
Outro erro recorrente, segundo o especialista, está em implementar IA sem conexão direta com necessidades práticas do negócio.
Para ele, a estratégia mais eficiente começa pela identificação de gargalos operacionais, desperdícios e oportunidades reais de melhoria. Só depois disso a escolha tecnológica deve acontecer.
“O caminho mais eficaz é identificar onde estão os gargalos, os desperdícios e as oportunidades de ganho. A partir disso, a escolha da ferramenta se torna mais clara e direcionada”, explica.
Atendimento automatizado exige cautela
Moulin também alerta para os riscos da automação mal aplicada, especialmente no relacionamento com consumidores.
Experiências de atendimento automatizado que não resolvem problemas ou geram mais frustração ao cliente podem comprometer diretamente a reputação das marcas.
“Quando a tecnologia é aplicada sem critério, ela compromete a percepção de valor da marca e a experiência do cliente”, pontua.
IA já é inevitável, mas exige equilíbrio
Apesar das dificuldades, o especialista afirma que a inteligência artificial será inevitavelmente parte central da vida corporativa nos próximos anos.
“No entanto, avançar sem considerar o fator humano e o imperativo de que a tecnologia tem o papel de servir às pessoas também não funciona”, ressalta.
Segundo ele, o grande desafio das empresas será encontrar equilíbrio entre inovação tecnológica, desenvolvimento humano e geração de valor sustentável.
Quem é Fernando Moulin
Fernando Moulin é CEO e fundador da Polaris Group, aceleradora estratégica de negócios focada em transformação digital, inovação e experiência do cliente.
Com mais de 25 anos de experiência, o executivo acumula passagens por empresas como Telefônica Vivo, Claro, Citibank, Nokia e Pão de Açúcar.
Graduado em Engenharia Química pela Universidade Estadual de Campinas, possui MBA Executivo Internacional pela FIA-USP e cursos internacionais em instituições como INSEAD e Kellogg School of Management.




