Atualização da norma regulamentadora coloca executivos e CEOs no centro das discussões sobre riscos psicossociais nas empresas
A saúde mental nas empresas deixou de ser apenas uma pauta de recursos humanos para se transformar em tema estratégico de governança corporativa. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor no próximo dia 26 de maio, reforça essa mudança ao ampliar o foco sobre os chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Embora boa parte das discussões esteja concentrada nos colaboradores operacionais e administrativos, especialistas alertam para um ponto ainda pouco debatido: o impacto emocional sobre executivos, CEOs e diretores submetidos à pressão constante das posições de comando.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil registrou cerca de meio milhão de afastamentos relacionados à saúde mental em 2025. O avanço do número consolida um cenário em que questões emocionais passaram a impactar diretamente produtividade, relações profissionais, governança e sustentabilidade das organizações.
A atualização da NR-1, especialmente no trecho relacionado ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incorpora oficialmente fatores ligados ao adoecimento emocional, como jornadas excessivas, metas inalcançáveis, conflitos interpessoais, baixa autonomia, assédio moral e ambientes corporativos considerados tóxicos ou disfuncionais.
Para o psicanalista especializado em saúde emocional de CEOs e C-Levels, José Milton Castan Junior, o debate precisa incluir também quem ocupa as posições mais altas dentro das empresas. Segundo ele, existe uma cultura corporativa que ainda associa liderança à obrigação permanente de demonstrar controle absoluto, resistência emocional e estabilidade constante.
“A rotina da alta gestão costuma ser marcada por pressão contínua, hiperconectividade, jornadas extensas, metas agressivas e pela chamada solidão decisória. Quanto mais elevado o cargo, menor tende a ser o espaço percebido para demonstrar desgaste emocional”, afirma.
Cultura da invulnerabilidade ainda domina empresas
O especialista destaca que muitos executivos seguem trabalhando mesmo diante de sinais claros de fadiga psíquica, exaustão emocional e perda de clareza na tomada de decisões. Em muitos casos, o adoecimento ocorre de maneira silenciosa e gradual, sem que a organização perceba imediatamente os impactos.
Segundo Castan Junior, a chamada “cultura da invulnerabilidade executiva” continua presente em grande parte das corporações. Nela, líderes sentem que demonstrar fragilidade pode ser interpretado como sinal de incompetência ou incapacidade de gestão.
“O resultado é que muitos profissionais permanecem operando em estado de desgaste constante. Continuam trabalhando, mas já com impactos relevantes sobre a capacidade reflexiva, a gestão de conflitos e a tomada de decisões estratégicas”, explica.
Os reflexos desse processo, segundo ele, não ficam restritos ao indivíduo. Lideranças emocionalmente sobrecarregadas acabam influenciando negativamente o ambiente organizacional, comprometendo relações internas, segurança psicológica das equipes e até processos sucessórios.
“Uma liderança adoecida tende a contaminar culturas inteiras, ampliando ciclos de pressão, insegurança e desgaste coletivo”, ressalta.
NR-1 amplia conceito de risco ocupacional
A atualização da NR-1 representa uma mudança importante na forma como as empresas precisam lidar com saúde emocional dentro do ambiente corporativo. Até então, o conceito de risco ocupacional estava associado principalmente a fatores físicos, ergonômicos e operacionais. Agora, os riscos psicossociais passam a integrar oficialmente as obrigações relacionadas à prevenção e gestão de saúde no trabalho.
Na prática, isso significa que empresas precisarão observar aspectos como excesso de pressão, sobrecarga emocional, relações tóxicas, comunicação agressiva e ambientes de insegurança psicológica como fatores capazes de gerar adoecimento ocupacional.
Para especialistas em gestão e governança, a mudança também pressiona as organizações a criarem ambientes mais sustentáveis emocionalmente, incluindo políticas voltadas ao cuidado da própria liderança.
“O maior valor desse debate talvez nem seja jurídico, mas cultural. Quando saúde mental entra efetivamente na pauta do boardroom, ela deixa de ser tratada como fragilidade individual e passa a ter legitimidade institucional”, afirma Castan Junior.
Pressão por performance amplia desgaste emocional
A pressão constante por resultados, aliada ao ambiente de hiperconectividade e tomada de decisões rápidas, tem ampliado o desgaste emocional de profissionais em cargos de liderança. Em muitos casos, executivos permanecem disponíveis praticamente 24 horas por dia, conectados a reuniões, metas, indicadores e demandas emergenciais.
Além disso, a transformação digital acelerada, o avanço da inteligência artificial e as mudanças no comportamento do mercado ampliaram a necessidade de respostas rápidas e decisões cada vez mais complexas.
Segundo o especialista, essa combinação cria um ambiente propício para quadros de burnout, ansiedade, fadiga cognitiva e isolamento emocional entre líderes empresariais.
“Existe uma percepção equivocada de que o ônus emocional faz parte natural do cargo e deve ser suportado sem questionamentos. Isso faz com que muitos executivos negligenciem os próprios limites”, pontua.
Ele explica que, em cargos de liderança, o impacto emocional pode ser ainda mais delicado justamente porque decisões tomadas em momentos de desgaste mental afetam diretamente equipes, clientes, investidores e o rumo estratégico das organizações.
Saúde emocional passa a integrar governança corporativa
O avanço das discussões sobre saúde mental também muda a forma como empresas encaram governança corporativa e gestão de riscos. Organizações que antes tratavam o tema apenas como benefício ou ação pontual de bem-estar passam agora a enxergar o cuidado emocional como parte da sustentabilidade do negócio.
Segundo Castan Junior, desempenho e saúde mental não podem mais ser vistos como conceitos concorrentes.
“Empresas que desejam construir ambientes sustentáveis precisarão compreender que desempenho e saúde mental são elementos interdependentes”, destaca.
A tendência é que temas relacionados à segurança psicológica, equilíbrio emocional e qualidade das relações profissionais ganhem cada vez mais espaço dentro dos conselhos de administração e das estratégias corporativas.
Além da adequação à NR-1, especialistas apontam que empresas emocionalmente mais saudáveis tendem a reduzir afastamentos, melhorar retenção de talentos, aumentar produtividade e fortalecer ambientes mais inovadores e colaborativos.
Debate deve alcançar o topo das organizações
Para o psicanalista, a atualização da NR-1 representa uma oportunidade importante para ampliar o debate sobre saúde emocional dentro das empresas, especialmente entre executivos e lideranças de alto escalão.
“Esse debate não pode parar na base da estrutura corporativa; ele precisa alcançar também quem ocupa as posições de comando. Organizações emocionalmente saudáveis dificilmente serão construídas por lideranças emocionalmente exaustas”, conclui.
A tendência é que, nos próximos anos, o tema deixe de ser tratado apenas como questão de saúde individual e passe definitivamente a integrar estratégias de governança, gestão de pessoas e sustentabilidade empresarial.




