Estudo do IBM Institute for Business Value mostra que 23% dos executivos bancários no Brasil consideram a tokenização central para a estratégia, enquanto apenas 8% afirmam estar prontos para colocar iniciativas em operação
A tokenização de ativos já entrou no radar estratégico dos bancos brasileiros, mas a distância entre reconhecer seu potencial e estar preparado para colocá-la em prática ainda é significativa. Um estudo do IBM Institute for Business Value, realizado com 500 executivos dos setores bancário e de pagamentos em mais de 25 países, mostra que 23% dos executivos brasileiros consideram a tokenização central para a direção estratégica de suas instituições. Ao mesmo tempo, apenas 8% afirmam que suas iniciativas já estão em operação ou prontas para serem lançadas em 2026, abaixo da média global de 9%.
O cenário revela um paradoxo para o sistema financeiro brasileiro. Enquanto bancos e instituições de pagamentos enxergam na tokenização, nas moedas digitais e na inteligência artificial agêntica elementos capazes de transformar a próxima geração de serviços financeiros, a infraestrutura necessária para sustentar essa mudança ainda apresenta limitações. Entre os principais obstáculos apontados pelos executivos brasileiros estão a falta de interoperabilidade entre plataformas e a dificuldade de modernização dos sistemas legados.
O estudo, denominado 2026 Global Outlook for Banking and Financial Markets, indica que a transformação do setor financeiro não depende apenas da adoção de novas tecnologias. A capacidade de conectar sistemas, atualizar plataformas centrais, garantir segurança e preparar as organizações para novos modelos de operação será determinante para que o potencial da tokenização seja convertido em resultados concretos.
Tokenização ganha importância estratégica
A tokenização consiste, de maneira geral, na representação digital de ativos ou direitos em ambientes tecnológicos, permitindo novas formas de negociação, movimentação e liquidação. Para o setor financeiro, a tecnologia pode alterar processos relacionados a ativos digitais, pagamentos, liquidação de transações e integração entre diferentes plataformas.
No Brasil, o interesse estratégico pela tecnologia acompanha o movimento observado internacionalmente. Segundo o levantamento da IBM, 23% dos executivos bancários brasileiros afirmam que a tokenização é central para a estratégia de suas instituições. O índice demonstra que uma parcela relevante do setor já considera a tecnologia parte das decisões relacionadas ao futuro do negócio.
O problema aparece quando a discussão deixa o campo estratégico e chega à implementação. Apenas 8% dos executivos brasileiros dizem que suas iniciativas estão em operação ou prontas para serem lançadas em 2026. A média global é de 9%.
A diferença pode parecer pequena, mas evidencia que o reconhecimento da importância da tecnologia não significa necessariamente que os bancos possuam infraestrutura, processos e sistemas preparados para utilizá-la em escala.
Para Carlos Rivelle, vice-presidente da IBM Consulting para a América Latina, a modernização será determinante para a competitividade das instituições financeiras.
“Liderança na economia tokenizada, combinada com jornadas de IA agêntica, está redefinindo prioridades no setor financeiro. As instituições que modernizarem suas plataformas e acelerarem a adoção de ativos digitais estarão mais bem posicionadas para liderar a próxima geração de serviços financeiros”, afirma.
Interoperabilidade aparece como principal desafio
Entre os obstáculos identificados no Brasil, a interoperabilidade ocupa posição de destaque. Para 65% dos executivos entrevistados no país, a falta de interoperabilidade é a principal barreira para o crescimento da indústria de ativos digitais. O percentual supera a média global, de 59%.
Na prática, o desafio está relacionado à capacidade de diferentes sistemas, plataformas e ambientes tecnológicos trabalharem de maneira integrada. Em um cenário de expansão de ativos tokenizados, essa conexão se torna especialmente relevante porque o valor da tecnologia depende, em grande medida, de sua capacidade de operar além de ambientes isolados.
A dificuldade também se conecta à própria estrutura histórica do sistema financeiro. Bancos de grande porte mantêm plataformas centrais construídas e aperfeiçoadas ao longo de décadas. A substituição ou modernização dessas estruturas pode envolver custos elevados, riscos operacionais e grande complexidade técnica.
Por isso, a tokenização não pode ser analisada de maneira isolada. A adoção de novos modelos depende de uma infraestrutura capaz de conectar tecnologias emergentes aos sistemas responsáveis por sustentar as operações financeiras cotidianas.
Inteligência artificial e tokenização avançam juntas
O estudo também identifica uma relação cada vez mais próxima entre tokenização e inteligência artificial. No Brasil, 58% dos executivos acreditam que a tokenização terá impacto forte ou crítico na viabilização da interoperabilidade entre diferentes plataformas de IA. No levantamento global, o percentual é de 61%.
A inteligência artificial agêntica também aparece nessa transformação. Trata-se de sistemas capazes de executar tarefas e tomar determinadas ações dentro de parâmetros definidos, indo além do modelo tradicional de ferramentas que apenas respondem a comandos.
Entre os executivos brasileiros entrevistados, 46% acreditam que a IA agêntica terá impacto significativo sobre os canais programáveis de liquidação. No cenário global, o percentual chega a 57%.
A combinação entre as duas tecnologias pode alterar a forma como transações financeiras são processadas, automatizadas e liquidadas. Entretanto, o avanço dependerá de infraestrutura, regras claras, integração entre sistemas e mecanismos capazes de garantir segurança e controle.
Stablecoins e o futuro do dinheiro
Outro ponto de atenção do levantamento está relacionado à transformação dos meios de pagamento e das próprias estruturas monetárias.
No Brasil, 38% dos executivos consultados acreditam que as moedas digitais de bancos centrais, conhecidas pela sigla CBDCs, poderão substituir os arranjos tradicionais de cartões. O índice é ligeiramente superior à média global, de 35%.
As stablecoins também despertam expectativas significativas entre os executivos brasileiros. Segundo o estudo, 58% dos entrevistados no país esperam uma adoção forte ou transformacional dessa modalidade por grandes corporações até 2030. Globalmente, a expectativa é apontada por 42% dos participantes.
O avanço das stablecoins pode trazer impactos relevantes para o sistema bancário tradicional. Entre as possíveis consequências está a redução das bases de depósitos e das receitas obtidas pelos bancos com determinadas taxas relacionadas às transações.
Isso significa que a transformação não representa apenas uma oportunidade tecnológica. Ela também pode provocar mudanças em modelos tradicionais de receita e relacionamento entre instituições financeiras, empresas e consumidores.
Segurança quântica entra no planejamento
À medida que ativos digitais e novas infraestruturas financeiras avançam, a segurança passa a ocupar um papel ainda mais importante.
No Brasil, 92% dos executivos entrevistados afirmam que a criptografia capaz de resistir a ameaças associadas à computação quântica será crítica para a confiança e a escalabilidade dos ecossistemas tokenizados. O percentual supera a média global de 89%.
A preocupação está relacionada à evolução da capacidade computacional e ao potencial impacto futuro sobre métodos tradicionais de criptografia. Para instituições financeiras, que movimentam grandes volumes de dados e recursos, a segurança precisa ser considerada desde a construção da infraestrutura.
Nesse contexto, preparar sistemas para ameaças futuras passa a ser parte da própria estratégia de modernização. A adoção da tokenização sem uma arquitetura robusta de segurança poderia limitar a confiança necessária para que esses novos ambientes alcancem escala.
Sistemas legados ainda seguram a transformação
Apesar do entusiasmo com as novas tecnologias, um dos maiores entraves está justamente em estruturas antigas que continuam sustentando as operações financeiras.
O estudo aponta que, globalmente, a inadequação dos sistemas centrais legados é considerada a principal limitação para iniciativas de tokenização. A dificuldade de modernizar esses ambientes é conhecida no setor bancário e envolve questões que vão desde arquitetura tecnológica até custos, integração de dados e continuidade operacional.
Estudos anteriores do IBM Institute for Business Value mostram a dimensão desse problema. Segundo a organização, 94% dos projetos de modernização de sistemas centrais bancários não cumprem os prazos originalmente estabelecidos, em razão principalmente da complexidade técnica e de custos não previstos.
O dado ajuda a explicar por que a implementação de novas tecnologias pode avançar mais lentamente do que a estratégia. Um banco pode reconhecer a importância da tokenização e, ainda assim, enfrentar dificuldades para conectar uma nova solução à infraestrutura que sustenta suas operações.
Esse cenário cria uma espécie de paradoxo da modernização. Quanto mais importante se torna a transformação tecnológica, maior é a necessidade de mexer justamente nas estruturas que não podem simplesmente parar de funcionar.
A diferença entre reconhecer e estar preparado
Os resultados do levantamento mostram que o desafio dos bancos brasileiros não está necessariamente na falta de percepção sobre o futuro.
A tokenização já é considerada estratégica por uma parcela relevante dos executivos. A inteligência artificial também aparece como elemento importante da transformação. Stablecoins, CBDCs e segurança quântica estão no radar das instituições.
O ponto crítico é transformar essas expectativas em capacidade operacional.
Para isso, os bancos precisam combinar modernização tecnológica, integração entre plataformas, governança de dados, segurança e qualificação das equipes. A adoção de novas tecnologias passa a depender menos de projetos isolados e mais da capacidade de construir uma infraestrutura que permita a evolução contínua dos serviços financeiros.
Nesse ambiente, instituições que conseguirem avançar de maneira estruturada poderão reduzir a distância entre inovação e aplicação prática. Já aquelas que postergarem decisões relacionadas à modernização correm o risco de acumular ainda mais dificuldades para acompanhar a transformação do mercado.
“O sistema financeiro está diante de uma encruzilhada. As instituições que conseguirem modernizar seus sistemas, integrar IA de forma estratégica e adotar a tokenização não apenas sobreviverão, como liderarão a próxima geração de serviços financeiros. Aquelas que adiarem essas decisões ficarão para trás, competindo em um mercado que já mudou”, conclui Rivelle.
Pesquisa ouviu executivos em mais de 25 países
O estudo 2026 Global Outlook for Banking and Financial Markets foi conduzido pelo IBM Institute for Business Value em colaboração com a Oxford Economics no quarto trimestre de 2025.
Foram entrevistados 500 executivos seniores dos setores bancário e de pagamentos em mais de 25 países. A amostra incluiu 43 executivos da América Latina, sendo 26 deles do Brasil.
Os participantes ocupavam posições de liderança em áreas consideradas relevantes para o futuro dos serviços financeiros. A pesquisa distribuiu os entrevistados entre cinco grandes segmentos: banco de varejo, banco comercial, banco corporativo, gestão de ativos e patrimônio, além de redes e processadoras de pagamentos.
Cada segmento contou com 100 entrevistados. Para analisar questões relacionadas a prioridades e rankings, o levantamento utilizou o modelo estatístico Plackett-Luce, com o objetivo de garantir maior robustez aos resultados.
O estudo oferece, assim, um retrato das expectativas de executivos do setor em um momento em que tecnologias como tokenização e inteligência artificial deixam de ser apenas conceitos experimentais e passam a disputar espaço dentro das estratégias corporativas.
Sobre o IBM Institute for Business Value
O IBM Institute for Business Value é o centro de liderança de pensamento da IBM. A organização combina pesquisas globais, dados de desempenho, conhecimento de especialistas de diferentes setores e contribuições acadêmicas para produzir análises destinadas a apoiar decisões empresariais.
A instituição desenvolve estudos sobre transformação tecnológica, inteligência artificial, negócios, inovação e tendências que impactam diferentes segmentos da economia.
Sobre a IBM
A IBM atua globalmente nos segmentos de nuvem híbrida, inteligência artificial e consultoria. A companhia atende clientes em mais de 175 países e desenvolve soluções voltadas à transformação digital, modernização de processos, gestão de dados e aplicação de tecnologias emergentes.
No setor financeiro, a empresa trabalha com instituições que buscam modernizar suas plataformas, incorporar inteligência artificial e estruturar novas arquiteturas tecnológicas para acompanhar as mudanças no mercado.




