O agronegócio brasileiro pode liderar a bioeconomia global se investir de forma estratégica na integração de sistemas produtivos e em inovação tecnológica. Essa foi a principal mensagem do Fórum Integração e Biocompetitividade A Solução Brasileira, realizado nesta segunda-feira, 2 de março, em São Paulo. O evento reuniu representantes da indústria, pesquisa e governo para debater como o país pode transformar suas vantagens naturais em protagonismo econômico sustentável.
Organizado pela Associação Brasileira do Agronegócio e pela Rede ILPF, o encontro discutiu como a integração entre lavoura, pecuária e floresta, aliada à biocompetitividade, pode ampliar a produtividade com menor impacto ambiental e fortalecer o Brasil como potência verde.
Brasil tem base para liderar a bioeconomia
Na palestra inaugural, Mathias Schelp, vice-presidente para Agricultura Inteligente da Bosch América Latina, destacou que o Brasil reúne condições únicas para assumir protagonismo global na bioeconomia.
“O agronegócio é uma grande potência verde e o Brasil tem vantagens competitivas únicas: matriz energética diversificada, clima favorável, disponibilidade de água, e enorme biodiversidade. Por isso, o país tem a capacidade de atender as demandas ligadas à segurança alimentar e transição energética. Temos condições de liderar a bioeconomia, mas precisamos assumir esse protagonismo”, afirmou.
Segundo Schelp, a integração dos sistemas produtivos passa pela adoção de tecnologias que ampliem eficiência e reduzam impactos ambientais. Ele citou como exemplo soluções avançadas de aplicação de defensivos agrícolas e a tecnologia dual etanol-diesel para equipamentos pesados, que permite diminuir o consumo de diesel e ampliar o uso do etanol, combustível renovável amplamente disponível no Brasil.
“O caminho exige um esforço em conjunto, prioridade estratégica para ampliar práticas sustentáveis, fomentar políticas públicas, aumentar a produtividade e fortalecer todos os elos da cadeia”, explicou.
A defesa da tecnologia como ferramenta de competitividade reforça o papel da indústria no processo de modernização do campo, conectando inovação, sustentabilidade e rentabilidade.
Sistemas integrados ganham respaldo científico
Durante o painel Alimentos e Bioenergia Integrados, o professor Marcos Jank, do Insper, destacou que os sistemas integrados possuem forte embasamento científico e territorial.
“A indústria entra com tecnologia, modernidade e escala. O resultado é aumento de produtividade com redução do impacto ambiental”, afirmou.
A integração entre lavoura, pecuária e floresta é vista como uma estratégia capaz de intensificar o uso da terra sem necessidade de expansão de áreas, promovendo recuperação de pastagens, melhoria do solo e aumento da eficiência produtiva.
Essa abordagem dialoga diretamente com a agenda global de sustentabilidade, que pressiona por maior produção de alimentos e energia renovável sem avanço sobre áreas sensíveis.
Ciência nacional como motor do agro
A importância da pesquisa brasileira foi reforçada por Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial, vinculada à Embrapa.
“Temos uma ciência brasileira, feita por brasileiros e que hoje é referência para o mundo. Superamos barreiras genéticas na soja, promovemos melhorias genéticas na pecuária e avançamos em produtividade dentro de uma plataforma científica e tecnológica que conecta pesquisa, campo e mercado”, destacou.
Spadotti também ressaltou que a economia circular é eixo estruturante da integração produtiva e que não existe uma fórmula única para implementação dos sistemas integrados. Cada propriedade precisa considerar fatores como clima, solo, vocação produtiva e planejamento técnico.
Os sistemas ILPF são apontados como alternativa para aumentar o sequestro de carbono, melhorar o bem-estar animal e otimizar o uso de insumos, criando um modelo produtivo mais resiliente.
Tecnologia e máquinas mais eficientes
A indústria de máquinas agrícolas também marcou presença no debate. Monica Pedó, Sustainability Program Manager da John Deere, destacou que a evolução tecnológica voltada à integração de culturas está no centro da estratégia da companhia.
“Estamos integrando conhecimentos agronômicos, digitais e operacionais para promover a evolução das máquinas com mais eficiência e rentabilidade ao produtor”, afirmou.
Segundo ela, o avanço das máquinas conectadas e da agricultura digital permite monitoramento em tempo real, aplicação mais precisa de insumos e melhor aproveitamento dos recursos naturais.
Essa convergência entre tecnologia embarcada, dados e gestão é vista como um dos pilares da chamada agricultura inteligente, que busca reduzir desperdícios e elevar a competitividade.
Mudança de mentalidade no campo
Para Willian Marchió, diretor executivo da Rede ILPF, a adoção do sistema integrado exige planejamento técnico e mudança de mentalidade.
“Fazer a integração não é simples, mas os resultados são extraordinários”, afirmou.
De acordo com ele, o modelo sustentável da Rede ILPF se baseia na intensificação produtiva com diversificação de atividades na mesma área. Entre os benefícios estão recuperação de pastagens degradadas, melhoria da fertilidade do solo, aumento do sequestro de carbono e maior eficiência no uso de insumos.
A proposta reforça a ideia de que produtividade e sustentabilidade não são conceitos opostos, mas complementares quando há planejamento e base científica.
Abertura destaca legado da pesquisa
A solenidade de abertura do evento também destacou o papel histórico das instituições de pesquisa no desenvolvimento do agro brasileiro.
Francisco Matturro, presidente executivo da Rede ILPF, lembrou que março é um mês simbólico para a instituição.
“O Dia de Campo realizado em 2007, na Fazenda Santa Brígida, tornou-se um marco e hoje é referência quando falamos de sistemas integrados no Brasil”, afirmou.
Para ele, valorizar a pesquisa é reconhecer o papel estratégico dos pesquisadores no fortalecimento do setor. “O agro é forte porque é sustentado pela pesquisa.”
Matturro também mencionou que o Instituto Biológico terá em breve uma área experimental dedicada ao sistema ILPF, ampliando o espaço para desenvolvimento científico.
Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, ressaltou a trajetória histórica da agricultura nacional e a importância de maior integração entre os elos do setor.
“Antes mesmo da Embrapa, já contávamos com instituições como o Instituto Agronômico de Campinas e o Instituto Agronômico do Paraná. Construímos um sistema forte ao longo das décadas, mas ele precisa ser cada vez mais integrado”, afirmou.
Geraldo Melo Filho, secretário de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, destacou o papel do poder público no apoio ao produtor rural.
“A pesquisa é a ponte entre a dúvida que nos inquieta e a ciência que nos coloca no caminho do desenvolvimento”, declarou.
Já Ana Eugênia de Carvalho Campos, diretora-geral do Instituto Biológico, ressaltou a missão histórica da instituição no apoio à cafeicultura e à sanidade agropecuária. Ana Paula Packer, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, enfatizou a necessidade de visão estratégica para garantir a evolução do setor agropecuário.
Integração como estratégia de futuro
O fórum reforçou que o crescimento do agro brasileiro não depende apenas da expansão territorial, mas da intensificação sustentável da produção. A integração de sistemas, aliada à biocompetitividade e à inovação tecnológica, surge como resposta às exigências de um mercado global cada vez mais atento às práticas ambientais.
Com base científica consolidada, indústria atuante e produtores cada vez mais profissionalizados, o Brasil reúne condições para ampliar sua liderança em alimentos e bioenergia. O desafio, segundo os participantes, é transformar potencial em estratégia coordenada e de longo prazo.




