Falta de educação financeira ameaça crescimento de vendedores em marketplaces no Brasil

O avanço acelerado do comércio digital no Brasil tem facilitado a entrada de milhões de empreendedores nos marketplaces, mas a ausência de educação financeira e de gestão estruturada começa a se tornar um dos principais riscos para a sustentabilidade desses negócios. Em um cenário em que abrir uma loja online pode levar apenas algumas horas, especialistas alertam que a falta de conhecimento em áreas como precificação, controle de caixa e logística pode levar operações promissoras à falência.

Crescimento do comércio digital expõe fragilidade na gestão

O ambiente digital democratizou o acesso ao empreendedorismo. Hoje, qualquer pessoa pode iniciar uma loja virtual com relativa facilidade, especialmente dentro de marketplaces que concentram grande parte do comércio eletrônico brasileiro.

No entanto, a mesma facilidade de entrada também revela um problema estrutural: muitos empreendedores iniciam suas operações sem domínio básico de gestão financeira.

Dados da SumUp indicam que 56% dos empreendedores brasileiros nunca estudaram finanças, mesmo que 92% deles sejam responsáveis diretamente pela gestão do caixa de seus negócios.

O cenário se torna ainda mais preocupante quando analisado em conjunto com uma pesquisa da Cielo. O levantamento mostra que, embora 91% dos micro e pequenos empresários realizem algum tipo de controle financeiro, apenas 33% acompanham esses indicadores diariamente. Além disso, 27% admitem não possuir conhecimento adequado em gestão financeira.

Esses fatores podem comprometer diretamente a sustentabilidade das operações digitais, principalmente em um ambiente competitivo e de margens apertadas.

Ecossistema de marketplaces cresce rapidamente

O crescimento do comércio digital brasileiro tem sido impulsionado principalmente pelos marketplaces, plataformas que concentram vendedores e consumidores em um único ambiente.

Somente na Shopee, por exemplo, existem cerca de 3,3 milhões de vendedores cadastrados no país. Desse total, metade obtém a maior parte de sua receita diretamente pela plataforma.

Já na Shein, o número de vendedores brasileiros chega a pelo menos 30 mil, refletindo o avanço do modelo de comércio digital baseado em plataformas globais.

Esse crescimento acelerado amplia a demanda por qualificação técnica e gerencial. Com milhares de novos sellers entrando no mercado, o diferencial competitivo deixou de ser apenas a presença online.

Hoje, o que define o sucesso das operações digitais é a capacidade de gestão estratégica do negócio.

Falta de preparo ainda é um dos principais desafios

Para especialistas do setor, a ausência de conhecimento em áreas fundamentais de gestão está entre as principais causas de mortalidade de negócios digitais.

Segundo Claudio Dias, CEO da Magis5, muitos empreendedores entram no comércio eletrônico com grande disposição para crescer, mas acabam enfrentando dificuldades operacionais por falta de preparo técnico.

“O seller brasileiro é, antes de tudo, um desbravador. Porém, a falta de domínio sobre precificação, estoque, logística, fluxo de caixa e performance por canal ainda está entre os principais fatores de mortalidade das operações digitais”, afirma.

De acordo com o executivo, as próprias empresas de tecnologia passaram a perceber que oferecer ferramentas não é suficiente para garantir o sucesso dos usuários.

“Percebemos que entregar a melhor ferramenta de automação não bastava. Era necessário ensinar como utilizá-la estrategicamente. Para nós, educação é infraestrutura de crescimento”, explica.

Educação passa a integrar estratégia das empresas

Em mercados digitais mais maduros, programas de formação para vendedores já são considerados parte essencial da estratégia das empresas.

A lógica é simples: quanto mais preparados estão os sellers, maiores são as chances de crescimento sustentável dentro das plataformas.

Esse modelo tem sido adotado por marketplaces, plataformas de tecnologia e hubs de integração que atuam no comércio eletrônico.

Segundo Claudio Dias, o mercado brasileiro começa a seguir esse mesmo caminho.

“Plataformas, hubs de tecnologia e marketplaces passaram a entender que não basta oferecer ferramentas. É preciso ensinar o vendedor a pensar como gestor, interpretar indicadores, estruturar processos e tomar decisões baseadas em dados”, afirma.

Educação e tecnologia passam a caminhar juntas

Nesse contexto, algumas empresas do setor têm ampliado iniciativas voltadas à formação de vendedores digitais.

A Magis5, conhecida por desenvolver soluções de integração entre marketplaces, ERPs e operações logísticas, passou a estruturar um ecossistema educacional voltado para profissionais do comércio eletrônico.

A proposta é transformar tecnologia, dados e processos operacionais em aprendizado prático para quem vende online.

“Você pode ter o melhor sistema do mundo, mas, se o seller não entende margem, giro, custos e desempenho por canal, ele continua operando no escuro”, afirma Dias.

Universidade Magis5 forma gestores de marketplace

Uma das iniciativas mais recentes da empresa é a criação da Universidade Magis5, plataforma de ensino voltada à formação de profissionais especializados na gestão de operações em marketplaces.

O projeto busca preparar o chamado Gestor de Marketplace, profissional responsável por administrar múltiplos canais de venda com domínio de estratégia comercial, precificação, logística, tributação e análise de desempenho.

A plataforma reúne mais de 250 horas de conteúdo educacional voltado para o comércio digital.

Segundo a empresa, já são mais de 5.700 alunos matriculados e cerca de 15 mil horas de aulas assistidas. Até o momento, mais de 1.500 certificados foram emitidos.

“Não ensinamos apenas a utilizar a plataforma. Ensinamos estratégia de e-commerce aplicada à realidade operacional”, afirma o CEO.

Os cursos foram desenvolvidos para atender diferentes perfis de vendedores, desde iniciantes até empresas que já processam centenas ou milhares de pedidos por mês.

Entre os temas abordados estão gestão multicanal, automação de processos, integração com sistemas de gestão empresarial, análise de dados e escalabilidade das operações.

Conteúdo contínuo complementa formação

Além da universidade corporativa, a estratégia educacional da empresa inclui produção contínua de conteúdo voltado para o setor de comércio digital.

Enquanto a universidade oferece formação estruturada e certificação, os canais de mídia funcionam como instrumentos de atualização constante.

O objetivo é acompanhar mudanças regulatórias, novas tecnologias e transformações no comportamento do consumidor digital.

Entre as iniciativas está o podcast Papo de Seller, que reúne especialistas, executivos e empreendedores para discutir tendências e desafios do comércio eletrônico.

Nos episódios, são abordados temas como inteligência artificial aplicada ao varejo, automação de processos, omnichannel, meios de pagamento, gestão tributária e logística.

A proposta é compartilhar experiências práticas de profissionais que atuam diretamente no mercado digital.

Formação pode fortalecer todo o ecossistema digital

Para empresas do setor, a qualificação dos vendedores não impacta apenas o desempenho individual das lojas, mas também a sustentabilidade de todo o ecossistema digital.

Sellers mais preparados tendem a cometer menos erros operacionais, melhorar margens de lucro e escalar suas operações com maior previsibilidade financeira.

Além disso, negócios mais estruturados reduzem índices de churn, aumentando o tempo de permanência dos vendedores dentro das plataformas.

“Quanto mais qualificado é o vendedor, maior é o valor que ele extrai da tecnologia. Isso fortalece toda a cadeia digital”, conclui Claudio Dias.

A Magis5 desenvolve soluções que conectam marketplaces, ERPs e sistemas de gestão, permitindo que sellers controlem pedidos, estoque, preços e faturamento em um único ambiente. Esse tipo de infraestrutura tecnológica tem sido considerado fundamental para o avanço do chamado comércio unificado, modelo que integra diferentes canais de venda em uma única operação.

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