Coalizão com 109 organizações pede bloqueio de financiamento ao Grupo Agronorte por alegações ligadas a desmatamento e conflitos indígenas no Tocantins
Uma proposta de empréstimo de US$ 20 milhões da International Finance Corporation (IFC), braço do setor privado do Grupo Banco Mundial, para o Grupo Agronorte, empresa brasileira do agronegócio, passou a enfrentar forte pressão internacional após organizações ambientais e lideranças indígenas questionarem os impactos ambientais e sociais do projeto.
A mobilização é coordenada pela campanha Stop Financing Factory Farming, da organização internacional Sinergia Animal, e reúne 109 organizações da sociedade civil de diferentes países. O grupo pede que a IFC rejeite o financiamento, alegando riscos relacionados ao desmatamento da Amazônia e conflitos fundiários envolvendo comunidades indígenas no Tocantins.
Segundo informações disponíveis no portal de projetos da IFC, o financiamento seria destinado à aquisição de uma unidade de nutrição animal em Três Corações, Minas Gerais, com capacidade para produzir 520 mil toneladas anuais de ração para animais de estimação, equinos, pecuária e peixes.
Organizações questionam impacto ambiental do projeto
As críticas ao financiamento ganharam força após a divulgação de uma carta enviada à IFC e assinada por 73 organizações, coletivos, pesquisadores e movimentos sociais. O documento afirma que o investimento pode contrariar compromissos ambientais internacionais e políticas de sustentabilidade da própria instituição financeira.
“Financiar uma empresa envolvida em conflitos fundiários e acusada de desmatamento ilegal não está alinhado com as políticas da IFC, nem com os objetivos do Acordo de Paris ou do Marco Global da Biodiversidade”, afirma o texto.
A coalizão também argumenta que o projeto pode ampliar a pressão sobre o cultivo de soja em larga escala, matéria-prima amplamente utilizada na produção de ração animal.
Segundo os signatários, a expansão desse modelo produtivo estaria diretamente ligada ao avanço do desmatamento e ao agravamento de disputas territoriais em áreas próximas ao Território Indígena Apinajé, no Tocantins.
Alegações envolvem fundador da Agronorte
As críticas ao projeto também citam alegações envolvendo o empresário Gilmar Gonçalves Carvalho, fundador e acionista majoritário do Grupo Agronorte.
De acordo com informações mencionadas no material divulgado pela coalizão, reportagens da Repórter Brasil apontam que áreas próximas ao Território Indígena Apinajé teriam sido alvo de desmatamento associado ao empresário.
O material também menciona que Carvalho figura como réu em uma ação federal movida pelo Ministério Público Federal relacionada a aproximadamente 2 mil hectares de desmatamento supostamente realizados em 2013 nas proximidades da área indígena.
Lideranças Apinajé vêm denunciando impactos ambientais e possíveis ameaças aos recursos hídricos e aos meios de subsistência das comunidades da região.
Debate envolve financiamento internacional e sustentabilidade
Para organizações ambientais, o caso amplia o debate sobre o papel de instituições financeiras multilaterais no financiamento de projetos ligados ao agronegócio e à produção industrial de proteína animal.
Merel van der Mark, gerente do Programa de Bem-Estar Animal e Finanças da Sinergia Animal, afirma que o financiamento proposto contradiz compromissos públicos assumidos pelo Grupo Banco Mundial em temas climáticos e de proteção a povos indígenas.
“Esse investimento corre o risco de intensificar a destruição ambiental e aprofundar os conflitos com comunidades indígenas”, declarou.
A representante também criticou o modelo produtivo associado à expansão da produção de ração animal baseada em soja.
“O financiamento público para o desenvolvimento não deve apoiar empresas associadas a alegações de desmatamento e ameaças aos povos indígenas”, acrescentou.
Expansão do agronegócio e pressão internacional
O episódio acontece em um momento de crescente pressão internacional sobre cadeias produtivas ligadas ao desmatamento e à rastreabilidade ambiental no Brasil.
Nos últimos anos, instituições financeiras globais passaram a enfrentar cobranças mais rígidas de investidores, organizações ambientais e governos internacionais sobre critérios ESG, especialmente em operações ligadas ao agronegócio, mineração e infraestrutura.
O avanço de regulamentações ambientais na União Europeia e acordos internacionais relacionados à preservação florestal também intensificou o escrutínio sobre empresas e projetos com atuação na Amazônia e em territórios indígenas.
IFC ainda analisa operação
Até o momento, a IFC não anunciou decisão definitiva sobre a aprovação do empréstimo ao Grupo Agronorte. O financiamento segue em análise dentro da carteira de projetos da instituição.
A discussão em torno do caso reforça o cenário de tensão crescente entre expansão econômica, financiamento internacional e preservação ambiental, especialmente em setores ligados à produção agroindustrial.




