Segundo semestre marca início das mudanças práticas nas organizações, que precisam revisar sistemas, contratos, precificação e planejamento para reduzir riscos durante a transição
A Reforma Tributária brasileira entrou em uma etapa decisiva para o setor produtivo. Com a regulamentação do novo sistema por meio da Lei Complementar nº 214/2025, empresas de todos os portes iniciam, no segundo semestre de 2026, um processo de adaptação que ultrapassa as áreas fiscal e contábil e alcança praticamente toda a estrutura corporativa. Especialistas alertam que as decisões tomadas nos próximos meses poderão influenciar diretamente a competitividade, a eficiência operacional e a segurança jurídica durante o período de transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo.
Embora a implementação completa da reforma ocorra de forma gradual até 2033, as adequações começam agora. Revisão de sistemas de gestão, atualização de documentos fiscais, análise de contratos, redefinição de estratégias de precificação e reorganização dos processos internos passam a integrar a agenda das empresas que pretendem evitar riscos fiscais e minimizar impactos financeiros ao longo da mudança.
Para André Fantoni, estrategista tributário, especialista em ICMS e Reforma Tributária, ex-fiscal de Tributos da Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso (SEFAZ-MT) e CEO da Fantoni Assessoria Tributária, o principal erro é acreditar que ainda há tempo para adiar as adaptações.
“A Reforma Tributária não começa quando o imposto muda. Ela começa quando a empresa revisa processos, parametriza sistemas, reavalia contratos, reorganiza sua formação de preços e entende como funcionará a nova lógica de aproveitamento dos créditos tributários. Quem deixar essa preparação para depois terá menos tempo para corrigir erros e poderá enfrentar impactos financeiros importantes”, afirma.
Mudanças vão muito além do departamento fiscal
A Reforma Tributária do consumo representa a maior reestruturação do sistema tributário brasileiro nas últimas décadas. O novo modelo substitui gradualmente tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI por dois novos impostos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), administrado por estados e municípios. Também será implantado o Imposto Seletivo para determinados produtos.
Na prática, porém, os efeitos da regulamentação não ficam restritos ao setor tributário.
Empresas precisarão revisar processos operacionais, atualizar sistemas ERP, adequar cadastros de produtos e serviços, revisar contratos com fornecedores e clientes, além de recalcular políticas de preços e margens comerciais considerando a nova sistemática de tributação e aproveitamento de créditos.
Essa necessidade de integração entre diferentes áreas torna a adaptação muito mais ampla do que uma simples atualização de software.
Segundo especialistas, departamentos financeiros, jurídicos, tecnologia da informação, controladoria, compras, comercial e logística deverão atuar conjuntamente para garantir que a empresa esteja preparada para operar dentro das novas regras.
Planejamento passa a ser fator competitivo
Na avaliação de André Fantoni, a Reforma Tributária transforma definitivamente o planejamento tributário em uma ferramenta estratégica para os negócios.
Se anteriormente muitas empresas utilizavam o planejamento principalmente para buscar eficiência fiscal, agora ele passa a influenciar diretamente decisões relacionadas à competitividade, investimentos, expansão e sustentabilidade financeira.
“O planejamento tributário deixa de ser apenas uma ferramenta voltada à economia de tributos. Com a Reforma Tributária, ele passa a integrar a estratégia do negócio, permitindo antecipar riscos, fortalecer a segurança jurídica e apoiar decisões que influenciam diretamente a competitividade da empresa”, explica.
Esse movimento exige que as organizações realizem diagnósticos detalhados de suas operações antes que as próximas fases da transição avancem.
Entre os principais pontos que devem ser analisados estão:
- revisão do enquadramento tributário;
- mapeamento das operações;
- análise dos contratos de longo prazo;
- atualização dos sistemas de gestão;
- parametrização das regras fiscais;
- avaliação dos impactos na formação de preços;
- estudo do aproveitamento de créditos;
- treinamento das equipes envolvidas nos processos fiscais e financeiros.
Tecnologia ganha papel central na adaptação
Uma das maiores preocupações das empresas está relacionada aos sistemas de gestão.
A implantação do novo modelo tributário exige mudanças profundas na parametrização dos ERPs, na emissão de documentos fiscais eletrônicos e na integração entre diferentes plataformas corporativas.
Especialistas alertam que adaptações realizadas apenas no momento da entrada em vigor das novas regras poderão gerar retrabalho, atrasos operacionais e dificuldades para atender às exigências legais.
Segundo Fantoni, cada empresa possui características específicas que precisam ser avaliadas individualmente.
“Muitas empresas imaginam que bastará atualizar o ERP quando chegar o momento. Isso dificilmente será suficiente. Cada operação possui características próprias, cadeias de fornecedores diferentes, contratos específicos e modelos distintos de formação de preços. Quanto antes esse diagnóstico for realizado, menor será o risco de retrabalho e de perda de competitividade.”
Além da tecnologia, a preparação também envolve capacitação das equipes responsáveis pela gestão tributária e financeira, uma vez que novos conceitos passam a fazer parte da rotina das empresas.
Segurança jurídica preocupa organizações
Outro aspecto relevante da regulamentação é o fortalecimento da necessidade de compliance tributário.
A transição ocorrerá durante vários anos, exigindo convivência entre o sistema atual e o novo modelo de tributação.
Essa coexistência aumenta a complexidade operacional e exige maior controle sobre documentos fiscais, apuração de tributos, escrituração e aproveitamento de créditos.
Empresas que não estruturarem processos consistentes poderão enfrentar riscos relacionados à autuação fiscal, aumento de custos administrativos e perda de competitividade.
Para especialistas, investir em governança tributária durante esse período será tão importante quanto realizar as adaptações tecnológicas.
Segundo semestre será decisivo
Embora a implementação completa da Reforma Tributária ocorra até 2033, o segundo semestre de 2026 é considerado um período estratégico para preparação das empresas.
É nesse momento que organizações começam a transformar a legislação em processos internos, realizando testes, revisando procedimentos e estruturando planos de adaptação.
A expectativa é que as empresas que iniciarem essa preparação de forma antecipada consigam reduzir riscos, preservar margens financeiras e aproveitar oportunidades criadas pelo novo ambiente tributário.
Para André Fantoni, a postura preventiva será determinante para atravessar esse período com segurança.
“Os próximos meses serão decisivos para identificar vulnerabilidades, testar processos e preparar a empresa para um modelo tributário completamente diferente do atual. Quem utilizar esse período para estruturar a transição chegará às próximas etapas com mais segurança. Já quem continuar adiando as adequações poderá enfrentar custos adicionais, dificuldades operacionais e maior exposição a riscos fiscais”, conclui.
Reforma muda a forma de gestão das empresas
Mais do que alterar a cobrança de tributos, a Reforma Tributária inaugura uma nova lógica de gestão empresarial, exigindo integração entre tecnologia, finanças, jurídico, operações e planejamento estratégico.
À medida que a regulamentação avança, cresce a percepção de que a adaptação não representa apenas uma obrigação legal, mas também uma oportunidade para modernizar processos, fortalecer a governança e tornar as empresas mais preparadas para competir em um ambiente econômico mais dinâmico.
Especialistas apontam que organizações que iniciarem essa jornada desde agora terão melhores condições de enfrentar os desafios da transição, reduzir custos futuros e transformar a mudança tributária em vantagem competitiva.




