Em um cenário de juros elevados, crédito mais caro e maior cautela nas decisões empresariais, cortar investimentos em inovação pode parecer uma medida natural para preservar o caixa. Mas, segundo Ana Paula Debiazi, CEO da Leonora Ventures, abandonar ou adiar completamente iniciativas voltadas ao desenvolvimento de novos produtos, processos, canais e modelos de negócio também pode representar um risco para a competitividade e a sobrevivência das empresas no médio e longo prazo.
O dilema se torna ainda mais evidente em períodos de incerteza econômica: preservar recursos para garantir a operação atual ou investir em iniciativas cujo retorno pode levar mais tempo e nem sempre é garantido? Para a executiva, a resposta não está em ignorar os riscos envolvidos na inovação, mas em desenvolver projetos com foco, método, critérios de priorização e disciplina.
O ambiente econômico brasileiro tem levado muitas organizações a reforçar estratégias voltadas à liquidez, à eficiência operacional e a projetos com retorno mais rápido. A Selic, apesar da redução para 14,25% ao ano em junho, permanece em um patamar elevado, encarecendo o crédito e aumentando o custo de oportunidade dos investimentos.
Nesse contexto, iniciativas de inovação costumam perder espaço nas prioridades corporativas. Como envolvem testes, hipóteses, aprendizados e possibilidade de erro, projetos inovadores podem ser classificados como despesas adiáveis diante da necessidade de proteger o caixa.
A decisão pode parecer prudente quando observada apenas sob a perspectiva do curto prazo. No entanto, segundo a análise apresentada pela CEO da Leonora Ventures, reduzir investimentos de forma indiscriminada pode limitar a capacidade da empresa de responder às transformações do mercado.
A inovação, nesse cenário, deixa de ser apenas uma agenda voltada ao crescimento e passa a ocupar um papel ligado também à resiliência, à diversificação de receitas e à permanência das organizações em mercados cada vez mais competitivos.
Juros altos aumentam a cautela das empresas
O atual cenário econômico exige maior atenção das empresas em relação à alocação de recursos. Juros elevados tornam o crédito mais caro e levam gestores a avaliar com mais rigor os investimentos realizados.
A busca por eficiência e preservação de liquidez, portanto, é uma resposta compreensível em períodos de maior incerteza.
O problema, segundo Ana Paula Debiazi, surge quando a necessidade de proteção do caixa leva as organizações a abandonar completamente investimentos capazes de preparar o negócio para mudanças futuras.
Projetos de inovação, por sua própria natureza, nem sempre entregam resultados imediatos. Diferentemente de uma operação consolidada, que possui indicadores históricos e maior previsibilidade, uma iniciativa experimental depende de validação.
É preciso testar uma hipótese, observar a resposta do mercado, ajustar a solução e, somente então, decidir se o projeto deve ser ampliado.
Esse processo pode gerar uma percepção de risco maior, especialmente quando comparado a investimentos destinados à operação já existente.
Ainda assim, deixar de experimentar também representa uma escolha estratégica com consequências.
Empresas que reduzem sua capacidade de testar novos produtos, serviços, canais e modelos de negócio podem se tornar mais dependentes das atuais fontes de receita.
Essa dependência aumenta a vulnerabilidade diante de mudanças no comportamento dos consumidores, da entrada de novos concorrentes e da evolução tecnológica.
Taxa de inovação acende alerta entre empresas brasileiras
Os dados apresentados no artigo reforçam o desafio enfrentado pelas empresas brasileiras.
A PINTEC Semestral, do IBGE, mostrou que a taxa de inovação das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas caiu pelo terceiro ano consecutivo e atingiu 64,4% em 2024, o menor resultado da série iniciada em 2021.
O indicador não significa que as empresas brasileiras tenham perdido sua capacidade de inovar. O resultado, no entanto, sinaliza dificuldades para transformar conhecimento, tecnologia e oportunidades de mercado em novos produtos, processos e soluções.
Em períodos de restrição financeira, a inovação tende a disputar recursos com necessidades mais imediatas da operação.
O risco é que decisões tomadas exclusivamente com base na pressão do presente possam comprometer a capacidade de geração de valor no futuro.
Uma empresa que deixa de desenvolver alternativas passa a depender cada vez mais do que já funciona.
Essa estratégia pode oferecer estabilidade temporária, mas também reduz a capacidade de reação quando o mercado muda.
A transformação tecnológica tem acelerado esse desafio.
Novos concorrentes podem surgir com modelos de negócio diferentes, tecnologias podem alterar estruturas tradicionais de custos e consumidores podem mudar rapidamente suas expectativas em relação a produtos e serviços.
Nesse cenário, a inovação funciona como uma forma de criar alternativas antes que a necessidade de mudança se torne urgente.
Inovar não significa fazer grandes apostas
Um dos principais pontos destacados por Ana Paula Debiazi é que inovação não precisa ser sinônimo de grandes investimentos ou estruturas corporativas complexas.
Em períodos de restrição financeira, a inovação precisa estar ainda mais conectada aos objetivos estratégicos da organização.
Isso significa identificar problemas relevantes, estabelecer prioridades e criar projetos capazes de produzir aprendizado com investimentos controlados.
Uma das alternativas é trabalhar com ciclos menores de teste.
Em vez de comprometer grandes volumes de recursos antes de conhecer a resposta do mercado, a empresa pode desenvolver um projeto-piloto com objetivos definidos.
Se a hipótese não se confirmar, o aprendizado acontece em uma etapa inicial e com um custo mais limitado.
Caso a solução apresente resultados positivos, a organização passa a contar com evidências para decidir sobre uma expansão.
Essa lógica reduz a necessidade de apostar grandes recursos em uma única iniciativa.
Ao mesmo tempo, permite que as empresas continuem desenvolvendo capacidades e explorando oportunidades mesmo em um ambiente econômico mais restritivo.
A inovação, portanto, pode ser organizada como um processo de experimentação controlada.
O objetivo não é eliminar completamente os riscos, algo praticamente impossível em qualquer iniciativa voltada ao futuro, mas criar mecanismos para compreender esses riscos antes de ampliar os investimentos.
Parcerias ajudam empresas a compartilhar riscos
Outra estratégia destacada no artigo é a possibilidade de compartilhar riscos e competências por meio de parcerias.
Startups, universidades, centros de pesquisa, fornecedores e até clientes podem contribuir para acelerar o desenvolvimento de novas soluções.
A inovação aberta ganha importância justamente por permitir que empresas tenham acesso a conhecimentos e tecnologias que não necessariamente precisam ser desenvolvidos internamente.
Em vez de criar toda uma estrutura do zero, uma organização pode estabelecer parcerias com atores que já possuem determinada competência.
Esse modelo pode reduzir o tempo de desenvolvimento e ampliar a capacidade de experimentação.
Para empresas tradicionais, a aproximação com startups pode trazer maior agilidade e novas perspectivas sobre problemas conhecidos.
Já para negócios em estágio inicial, a parceria pode oferecer acesso ao conhecimento de mercado, à infraestrutura e à base de clientes de organizações maiores.
A colaboração, nesse caso, funciona como uma forma de distribuir riscos.
Uma empresa não precisa necessariamente desenvolver sozinha todas as soluções necessárias para acompanhar as transformações do mercado.
A possibilidade de testar antes de escalar permite uma tomada de decisão baseada em resultados concretos.
O retorno da inovação não pode ser medido apenas pelo ROI
A forma de avaliar os resultados também precisa ser adaptada, especialmente nas fases iniciais dos projetos.
O retorno financeiro continua sendo um indicador essencial para qualquer negócio. No entanto, Ana Paula Debiazi defende que ele não deve ser o único critério utilizado para avaliar uma iniciativa de inovação.
Projetos em estágio inicial podem gerar valor antes mesmo de produzir uma nova fonte relevante de receita.
Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão a redução de custos, ganhos de produtividade, velocidade de aprendizado, adesão de clientes, criação de novas capacidades e potencial futuro de geração de receita.
Exigir de uma iniciativa experimental a mesma previsibilidade de uma operação consolidada pode levar empresas a interromper projetos antes que tenham a oportunidade de amadurecer.
A dificuldade está em encontrar equilíbrio.
Não se trata de manter projetos indefinidamente sem resultados ou critérios de avaliação.
Também não significa aceitar investimentos sem planejamento.
O ponto central é estabelecer indicadores compatíveis com o estágio de desenvolvimento de cada iniciativa.
Um projeto que ainda está validando um problema, por exemplo, precisa ser avaliado de maneira diferente de uma solução já comercializada e consolidada.
A inovação exige indicadores financeiros, mas também métricas relacionadas à aprendizagem e à evolução do projeto.
Governança é fundamental em períodos de maior restrição
A necessidade de preservar recursos não reduz a importância da inovação. Pelo contrário, pode aumentar a necessidade de critérios claros para a escolha dos projetos.
“Isso não significa defender investimentos sem critério. Pelo contrário: quanto mais desafiador o cenário, maior deve ser a governança”, destaca a análise.
A empresa precisa definir responsáveis, limites de investimento, etapas de decisão e critérios objetivos para avançar, ajustar ou interromper cada iniciativa.
A construção de um portfólio equilibrado pode ajudar a reduzir a exposição.
Enquanto algumas iniciativas são direcionadas para melhorias operacionais e ganhos de eficiência no curto prazo, outras podem explorar oportunidades capazes de gerar novas fontes de crescimento no futuro.
Essa combinação permite que a organização não concentre todos os seus recursos em uma única aposta.
A inovação com disciplina é diferente de investir sem direção.
Uma estratégia estruturada exige acompanhamento, definição de prioridades e disposição para interromper projetos que não apresentam os resultados esperados.
Ao mesmo tempo, exige paciência para não abandonar prematuramente iniciativas que ainda estão em processo de validação.
O desafio está em encontrar um modelo que permita proteger o caixa sem interromper completamente a capacidade da empresa de construir alternativas.
O custo de permanecer igual
Em momentos de incerteza, é comum que empresas adiem decisões importantes.
A espera pode oferecer uma sensação de segurança, principalmente quando o ambiente econômico apresenta riscos.
No entanto, o mercado não permanece parado enquanto uma organização aguarda condições ideais para agir.
Concorrentes continuam desenvolvendo produtos, testando modelos de negócio e construindo capacidades.
Novas tecnologias continuam surgindo e alterando a forma como setores inteiros operam.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas quanto custa inovar em um determinado momento.
Também é necessário avaliar o custo de não inovar.
“Também é necessário avaliar quanto pode custar permanecer igual”, afirma Ana Paula Debiazi.
Essa análise amplia a discussão sobre risco.
Frequentemente, a inovação é considerada uma atividade arriscada porque envolve incerteza.
Mas manter uma estratégia sem alterações também pode ser arriscado em mercados que passam por transformações constantes.
A diferença é que o risco de não mudar pode ser menos visível no curto prazo.
Uma empresa pode continuar operando normalmente durante determinado período mesmo sem investir em novas alternativas.
Os efeitos podem aparecer apenas mais tarde, quando o mercado já tiver mudado e a organização precisar recuperar capacidades que deixou de desenvolver.
Inovação como estratégia de resiliência
A inovação é frequentemente associada à expansão acelerada e à criação de novos mercados.
Em um cenário econômico mais restritivo, no entanto, ela também pode ser compreendida como uma estratégia de proteção.
Diversificar receitas reduz a dependência de um único produto ou mercado.
Desenvolver novas capacidades aumenta a velocidade de resposta diante de mudanças.
Testar soluções permite que empresas conheçam melhor as oportunidades antes de serem obrigadas a reagir.
Nesse sentido, inovação e preservação do negócio não precisam ser objetivos opostos.
A inovação pode contribuir para fortalecer a própria capacidade de sobrevivência da organização.
O desafio está em desenvolver uma estratégia compatível com o momento financeiro e operacional de cada empresa.
Nem todas as organizações precisam fazer grandes investimentos.
Nem toda iniciativa precisa gerar um novo negócio.
Em muitos casos, a inovação pode estar relacionada à melhoria de processos, à automação, à criação de novos canais de relacionamento ou à construção de parcerias.
O elemento central é manter a capacidade de observar o mercado, testar hipóteses e aprender.
Equilíbrio entre caixa e futuro será cada vez mais estratégico
O atual ambiente econômico aumenta a pressão por decisões eficientes.
Preservar liquidez e controlar custos continuará sendo uma prioridade para muitas empresas.
Ao mesmo tempo, a necessidade de competitividade exige que organizações mantenham algum nível de investimento na construção do futuro.
Para Ana Paula Debiazi, a questão não deve ser tratada como uma escolha entre proteger o negócio atual e inovar.
A inovação pode fazer parte da própria estratégia de preservação.
“Em tempos de incerteza, a inovação deixa de ser somente uma agenda de crescimento e passa a ser uma estratégia de resiliência. É ela que permite diversificar receitas, responder às mudanças com mais agilidade e manter a empresa relevante”, destaca.
A executiva defende que o desafio está em encontrar formas de inovar com mais disciplina, foco e governança.
Projetos menores, testes controlados, parcerias estratégicas e critérios claros de decisão podem permitir que empresas continuem explorando oportunidades sem comprometer de forma desproporcional a saúde financeira.
O mercado continuará mudando independentemente do nível de cautela das organizações.
Por isso, preservar o caixa e preparar o futuro precisam fazer parte da mesma equação.
O custo de inovar pode ser visível no orçamento.
Já o custo de deixar de inovar pode aparecer mais tarde, quando a empresa perceber que o mercado avançou enquanto ela permaneceu parada.
Sobre Ana Paula Debiazi
Ana Paula Debiazi é CEO da Leonora Ventures, corporate venture builder catarinense voltada ao impulsionamento de startups que desenvolvem tecnologias inovadoras para os setores de varejo, logística e educação.
Sobre a Leonora Ventures
A Leonora Ventures é uma corporate venture builder catarinense que atua no desenvolvimento e no crescimento de startups ligadas aos setores de varejo, logística e educação.
A iniciativa faz parte do Grupo Leonora, empresa presente no mercado desde 1984 e atuante na distribuição de produtos de papelaria no Brasil.
A Leonora Ventures trabalha com o desenvolvimento de negócios inovadores e busca apoiar o crescimento e o potencial de escala das startups com as quais atua.
Para mais informações, acesse o site oficial da Leonora Ventures.




