Empresas usam baterias para armazenar energia fora do horário de ponta e reduzir custos

Sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla BESS, começam a ganhar espaço entre consumidores comerciais e industriais brasileiros como alternativa para reduzir custos e aumentar a segurança das operações. Instaladas em fábricas, centros de distribuição e estabelecimentos comerciais, essas soluções permitem armazenar energia em períodos de menor custo e utilizá-la posteriormente, inclusive nos horários em que as tarifas da rede elétrica são mais elevadas.

O movimento ocorre em um momento de mudanças no setor elétrico brasileiro e de aumento da atenção das empresas aos custos relacionados ao consumo e à infraestrutura de energia. Consumidores que formalizaram a opção pelo mercado livre após 24 de novembro de 2025 não têm direito ao desconto na TUSD e na TUST sobre a energia consumida, condição que amplia significativamente o peso dos custos de rede na conta de energia.

Nesse cenário, o armazenamento deixa de ser analisado apenas como uma solução de emergência e passa a ser incorporado à estratégia financeira e operacional de empresas que enfrentam tarifas elevadas, picos de demanda, riscos de interrupção no fornecimento ou dependência de geradores a diesel.

Para Gabriel Morais, gerente de Novos Negócios da Erco Brasil e especialista em armazenamento de energia, a adoção de um sistema BESS precisa estar diretamente relacionada às necessidades específicas de cada operação.

“O BESS começa a fazer sentido econômico quando existe uma necessidade clara para resolver. Pode ser uma tarifa muito elevada no horário de ponta, uma operação vulnerável a interrupções, o consumo de diesel ou até uma limitação da rede. Nesses casos, o sistema de armazenamento passa a atuar diretamente sobre custos e confiabilidade”, afirma.

A Erco Energia, segundo informações da companhia, acumula mais de 4 mil projetos de energia solar fotovoltaica e possui 12 MWh de sistemas BESS em operação.

Armazenamento permite deslocar o consumo para horários mais baratos

Na prática, os sistemas BESS funcionam como uma reserva de energia instalada dentro ou próxima à operação do consumidor.

A empresa pode carregar as baterias utilizando energia da rede em períodos de menor custo e utilizar posteriormente a energia armazenada durante os horários mais caros.

Essa estratégia permite reduzir a exposição da operação às tarifas de ponta e reorganizar o perfil de consumo de acordo com os custos praticados pela distribuidora.

O conceito é conhecido no setor como deslocamento de carga. Em vez de consumir toda a energia no momento em que ela é necessária, a empresa utiliza parte da energia adquirida ou gerada anteriormente e armazenada nas baterias.

A possibilidade ganha relevância principalmente para operações que possuem grande consumo em horários específicos e estão submetidas a diferenças significativas entre as tarifas cobradas durante o dia.

Levantamento realizado pela Erco aponta que, em determinadas distribuidoras e enquadramentos tarifários, a diferença entre os valores cobrados na ponta e fora da ponta pode ser expressiva.

Segundo a empresa, em distribuidoras como Coelba, Energisa Acre e Equatorial Maranhão, a diferença entre a TUSD Energia cobrada no horário de ponta e fora dele pode se aproximar de 20 vezes em determinados enquadramentos tarifários.

Essa diferença cria uma oportunidade para que o armazenamento seja utilizado não apenas como equipamento de segurança, mas também como uma ferramenta de gestão de custos.

Ao carregar o sistema quando a energia possui menor custo e utilizar essa reserva durante períodos tarifários mais caros, a empresa pode reduzir a quantidade de energia adquirida diretamente da rede no momento de maior valor.

Mercado livre aumenta atenção aos custos da rede

As mudanças nas regras relacionadas ao mercado livre de energia também estão ampliando a discussão sobre eficiência energética e armazenamento.

Consumidores que formalizaram a opção pelo mercado livre após 24 de novembro de 2025 não têm direito ao desconto na TUSD e na TUST sobre a energia consumida.

A TUSD corresponde à Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição, enquanto a TUST está relacionada ao uso do sistema de transmissão.

Esses componentes representam uma parcela relevante da estrutura de custos de consumidores conectados ao sistema elétrico.

Com a perda dos descontos para determinados consumidores, cresce a necessidade de avaliar alternativas capazes de reduzir a exposição aos períodos de maior custo.

Nesse contexto, o BESS pode atuar como uma ferramenta complementar à estratégia de contratação e gestão de energia.

A tecnologia não substitui necessariamente a rede elétrica ou outras fontes de energia, mas pode oferecer maior flexibilidade para decidir quando e como a energia será utilizada dentro da operação.

Essa flexibilidade tende a ser especialmente relevante para indústrias, centros de distribuição, operações logísticas e estabelecimentos comerciais com consumo elevado e necessidade de maior previsibilidade.

BESS também ajuda a reduzir picos de demanda

A redução do consumo durante horários tarifários mais caros não é a única aplicação dos sistemas de armazenamento.

As baterias também podem ser utilizadas para reduzir picos de demanda.

Em determinadas operações, o consumo de energia não acontece de maneira uniforme. Máquinas, equipamentos e sistemas podem ser acionados simultaneamente, provocando momentos de maior demanda.

Esses picos podem representar custos adicionais para a empresa.

Com um sistema de armazenamento dimensionado para a necessidade da operação, parte da energia necessária nesses momentos pode ser fornecida pelas baterias.

A estratégia reduz a quantidade de energia demandada diretamente da rede durante determinados períodos.

Além do impacto financeiro, essa aplicação pode contribuir para uma operação mais equilibrada e previsível.

O armazenamento também pode ajudar empresas que enfrentam limitações relacionadas à capacidade da rede disponível em determinada região.

Em algumas situações, a expansão da operação depende de investimentos em infraestrutura elétrica ou de alterações na capacidade de fornecimento.

A utilização de baterias pode oferecer uma alternativa para administrar determinados momentos de maior demanda e aumentar a flexibilidade operacional.

Energia solar ganha mais flexibilidade com baterias

Outro campo de aplicação dos sistemas BESS está na integração com projetos de energia solar.

Empresas que possuem sistemas fotovoltaicos podem produzir energia em horários que nem sempre coincidem com o período de maior consumo.

Sem armazenamento, parte dessa energia precisa seguir as regras e condições de compensação ou utilização estabelecidas para a operação.

Com as baterias, a empresa passa a contar com a possibilidade de armazenar parte da energia produzida e utilizá-la posteriormente.

Essa combinação permite ampliar o aproveitamento da geração solar dentro da própria operação.

O armazenamento pode ser utilizado, por exemplo, para reservar energia produzida durante períodos de maior incidência solar e disponibilizá-la em horários posteriores.

A estratégia aumenta a flexibilidade do sistema energético e reduz a dependência exclusiva do momento em que a geração ocorre.

Para operações que possuem consumo após o fim do período de geração solar, a integração entre painéis fotovoltaicos e sistemas BESS pode representar uma alternativa para ampliar o uso da energia produzida.

Tecnologia reduz dependência de geradores a diesel

A confiabilidade do fornecimento também está entre os fatores que impulsionam o interesse pelo armazenamento.

Empresas que não podem interromper suas operações diante de falhas no fornecimento de energia frequentemente dependem de geradores.

O uso desses equipamentos, no entanto, pode representar custos relacionados à aquisição e ao consumo de combustível, além das necessidades de manutenção.

Os sistemas BESS podem atuar como uma alternativa complementar para determinadas aplicações.

A bateria permite disponibilizar energia de maneira rápida em situações de interrupção, ajudando a manter equipamentos e processos em funcionamento.

Dependendo do dimensionamento e da estrutura da operação, o armazenamento pode reduzir a necessidade de utilização de geradores movidos a diesel.

Além da questão financeira, essa substituição ou redução da dependência de combustíveis fósseis está relacionada às estratégias de descarbonização adotadas por empresas.

Operações que buscam reduzir emissões e ampliar a participação de fontes renováveis podem utilizar o armazenamento como parte de uma estrutura energética mais diversificada.

Para Gabriel Morais, o valor da tecnologia está justamente na capacidade de atender diferentes necessidades dentro de uma mesma operação.

“O BESS começa a fazer sentido econômico quando existe uma necessidade clara para resolver. Pode ser uma tarifa muito elevada no horário de ponta, uma operação vulnerável a interrupções, o consumo de diesel ou até uma limitação da rede. Nesses casos, o sistema de armazenamento passa a atuar diretamente sobre custos e confiabilidade”, afirma.

Payback pode ocorrer em menos de quatro anos

A viabilidade financeira de um sistema de armazenamento depende das características de cada projeto.

Fatores como perfil de consumo, tarifas, demanda, capacidade da bateria e forma de utilização influenciam diretamente o retorno do investimento.

Segundo levantamento da Erco, em determinadas condições tarifárias, a diferença entre os custos da energia na ponta e fora da ponta pode contribuir para viabilizar projetos com retorno mais rápido.

A companhia afirma que existem casos em que o investimento pode apresentar payback inferior a quatro anos quando o próprio cliente é o investidor do equipamento.

O cálculo, entretanto, depende da realidade de cada consumidor.

O dimensionamento do sistema é considerado um dos pontos mais importantes para garantir a eficiência econômica da solução.

Uma bateria com capacidade inadequada pode não atender às necessidades da operação ou representar um investimento superior ao necessário.

Por isso, a análise do perfil de consumo é uma das etapas fundamentais antes da implantação.

É necessário identificar quando a empresa consome mais energia, quais são os períodos de maior custo, onde estão os picos de demanda e quais processos precisam permanecer funcionando em caso de interrupção.

A partir desses dados, é possível definir qual aplicação deve ser priorizada.

Em algumas empresas, o principal benefício estará na redução da exposição às tarifas de ponta.

Em outras, o valor poderá estar na confiabilidade operacional ou na redução da dependência de geradores.

Regulação amplia espaço para o armazenamento no Brasil

O crescimento do interesse empresarial pelo BESS acontece paralelamente ao avanço das discussões regulatórias sobre o armazenamento de energia no Brasil.

Em 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica regulamentou sistemas autônomos de armazenamento e sua associação a centrais geradoras, ampliando o espaço para a utilização da tecnologia no sistema elétrico brasileiro.

A criação de regras específicas representa um passo importante para o desenvolvimento do setor.

Até então, o armazenamento precisava ser analisado dentro de uma estrutura regulatória que não havia sido criada originalmente para tratar as particularidades das baterias.

Com o avanço da regulamentação, o setor passa a contar com maior clareza sobre as possibilidades de integração da tecnologia.

Os primeiros leilões voltados ao armazenamento também estão previstos para dezembro de 2026.

A expectativa é que essas iniciativas ampliem a participação das baterias na infraestrutura energética brasileira.

O avanço regulatório pode contribuir para o desenvolvimento de novos projetos e para a criação de um mercado mais estruturado.

Além dos grandes projetos ligados ao sistema elétrico, a tendência também pode fortalecer a adoção de soluções instaladas diretamente nas operações de consumidores comerciais e industriais.

Bateria deixa de ser vista apenas como equipamento de emergência

A mudança mais significativa apontada pelo mercado está na forma como as empresas avaliam o papel do armazenamento.

Durante muitos anos, sistemas de reserva de energia foram associados principalmente à necessidade de manter equipamentos funcionando durante interrupções.

Com a evolução das baterias e das soluções de gestão energética, o armazenamento passa a assumir outras funções.

A empresa pode utilizar o equipamento para reduzir custos, administrar picos de consumo, ampliar o aproveitamento da geração renovável e reforçar a segurança operacional.

Essa combinação transforma a análise econômica da tecnologia.

Em vez de avaliar apenas quanto custa instalar uma bateria para situações de emergência, as empresas passam a considerar quanto podem economizar ao longo da operação.

Também entram na conta os riscos que podem ser evitados.

Uma interrupção no fornecimento de energia pode provocar perdas de produção, atrasos logísticos, danos a equipamentos ou interrupções no atendimento.

Dependendo da atividade, o impacto financeiro de uma parada pode ser significativamente maior do que o custo direto da energia.

Por isso, a confiabilidade passa a ser considerada um ativo operacional.

Para Morais, a mudança no ambiente tarifário e regulatório tende a ampliar essa discussão nos próximos anos.

“A bateria está deixando de ser analisada somente como equipamento de emergência. Com tarifas mais altas e uma regulação que começa a reconhecer o armazenamento como parte do sistema elétrico, a discussão passa a ser quanto uma empresa pode economizar e qual risco operacional consegue evitar com essa tecnologia”, conclui.

Armazenamento pode ganhar papel estratégico na gestão energética

A tendência é que o armazenamento se torne uma ferramenta cada vez mais presente na gestão energética de empresas.

A combinação entre tarifas mais elevadas, busca por eficiência, necessidade de maior confiabilidade e expansão das fontes renováveis cria um ambiente favorável para o desenvolvimento da tecnologia.

Para consumidores comerciais e industriais, a principal mudança está na possibilidade de administrar a energia de forma mais estratégica.

Historicamente, o consumo acontecia de acordo com a disponibilidade da rede e com a necessidade imediata da operação.

Com o armazenamento, parte desse consumo pode ser reorganizada.

A empresa ganha a possibilidade de comprar ou gerar energia em um momento e utilizá-la em outro.

Essa flexibilidade representa uma mudança importante na forma como a energia passa a ser tratada dentro dos negócios.

A energia deixa de ser apenas um custo inevitável da operação e passa a ser um elemento que pode ser gerenciado com base em dados, tarifas e necessidades específicas.

O avanço da regulamentação e a expansão dos projetos no país devem ampliar o conhecimento das empresas sobre as aplicações possíveis.

A adoção, porém, dependerá da análise individual de cada operação.

Não existe um único modelo capaz de atender todas as empresas.

O retorno de um sistema BESS está relacionado ao problema que ele precisa resolver.

Quando existe uma diferença relevante entre tarifas, uma operação vulnerável a interrupções, picos de demanda ou necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis, o armazenamento pode assumir uma função estratégica.

O desafio, para o setor, será transformar essa tecnologia em uma solução cada vez mais acessível e integrada à rotina empresarial.

Com custos energéticos no centro das decisões de competitividade, o armazenamento tende a deixar de ser uma tecnologia restrita a projetos específicos para ocupar espaço nas estratégias de eficiência e segurança de um número maior de empresas.

Sobre a Erco Energia

Fundada em 2012, a Erco Energia é uma empresa colombiana especializada em soluções energéticas sustentáveis.

A companhia possui atuação na Colômbia, Panamá, Estados Unidos e Brasil e oferece soluções relacionadas à comercialização de energia no Mercado Livre, armazenamento de energia por meio de sistemas BESS, gestão energética e outras iniciativas voltadas à transição energética.

A proposta da empresa é apoiar organizações na redução de custos com energia, na descarbonização de suas operações e na busca por modelos de consumo mais eficientes.

Mais informações estão disponíveis no site oficial da Erco Energia.

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