O mercado de assinaturas no Brasil está se expandindo para além do entretenimento e incorporando cada vez mais serviços ligados à tecnologia, alimentação, saúde e cuidados com animais. Dados do Relatório Assinaturas 2026, produzido pela Vindi, plataforma de pagamentos da LWSA, em parceria com o Opinion Box, mostram que inteligência artificial, serviços em nuvem, alimentação e o segmento pet estão entre as categorias que ajudam a diversificar o consumo recorrente no país, enquanto o streaming de vídeo segue como líder entre os serviços digitais.
A pesquisa, realizada com 1.040 pessoas de todas as regiões do Brasil entre junho e julho de 2026, aponta que 79% dos consumidores utilizam serviços de streaming de vídeo. Ao mesmo tempo, novas categorias vêm ganhando espaço no orçamento e na rotina dos brasileiros, refletindo uma transformação no próprio conceito de assinatura.
Segundo o levantamento, 43% dos consumidores utilizam serviços de nuvem, 42% recorrem a serviços relacionados à alimentação por meio de pagamentos recorrentes, 34% utilizam ferramentas de inteligência artificial e 23% mantêm assinaturas ou serviços ligados ao segmento pet.
O crescimento acontece em um cenário econômico que torna o consumidor mais criterioso. Preço e qualidade passaram a ter peso ainda maior nas decisões de contratar, manter ou cancelar um serviço. Mesmo assim, mais da metade dos entrevistados, 51%, acredita que seus gastos com assinaturas aumentarão nos próximos cinco anos.
O percentual mostra uma trajetória de crescimento na percepção dos consumidores. Em 2024, 46% acreditavam que aumentariam seus gastos com assinaturas no período de cinco anos. Em 2025, o índice passou para 48% e, agora, chegou a 51%.
Nos próximos 12 meses, no entanto, o comportamento deve ser mais cauteloso. Para 62% dos entrevistados, os gastos devem permanecer no mesmo patamar. Outros 22% esperam aumentar as despesas com serviços recorrentes, enquanto 16% acreditam que gastarão menos.
Assinaturas deixam de ser sinônimo de entretenimento
Durante anos, falar em serviços por assinatura significava, principalmente, pensar em televisão por streaming, música, revistas e outros produtos ligados ao entretenimento.
Esse cenário continua relevante, mas o modelo de recorrência está se espalhando para diferentes áreas da vida cotidiana.
Os dados da pesquisa mostram que os consumidores brasileiros já incorporaram assinaturas a serviços considerados essenciais e a ferramentas utilizadas no trabalho, na organização da rotina e no consumo diário.
A música e os podcasts, por exemplo, são consumidos por 55% dos entrevistados por meio de modelos de assinatura. Os cursos online aparecem na rotina de 33% dos consumidores.
Já os chamados serviços essenciais fazem parte dos pagamentos recorrentes de 87% dos brasileiros.
A internet é o serviço mais citado dentro desse grupo, adotada por 77% dos consumidores. Na sequência aparecem energia elétrica, com 74%, celular pós-pago, com 64%, e conta de água, utilizada por 62%.
Os serviços relacionados a fitness também conquistaram espaço no orçamento recorrente. Academias, natação, pilates, personal trainers e plataformas como Gympass são utilizados por 44% dos entrevistados.
O cenário indica que a lógica da assinatura deixou de estar associada exclusivamente ao lazer e passou a funcionar como um modelo de acesso contínuo a produtos e serviços.
A recorrência, nesse contexto, está relacionada à conveniência, à previsibilidade e à incorporação de determinados serviços à rotina.
Inteligência artificial entra no orçamento recorrente
Entre as transformações observadas pelo levantamento, o avanço das ferramentas de inteligência artificial chama atenção.
Segundo a pesquisa, 34% dos consumidores utilizam serviços de IA dentro da lógica de pagamentos recorrentes.
O dado acompanha a rápida popularização de ferramentas baseadas em inteligência artificial generativa, utilizadas tanto para atividades pessoais quanto profissionais.
Diferentemente de outras categorias digitais, a IA passou a ocupar simultaneamente espaços ligados ao trabalho, à produtividade, aos estudos e ao entretenimento.
Plataformas que antes eram vistas como tecnologias especializadas começaram a ser incorporadas ao cotidiano de profissionais, estudantes, empreendedores e empresas.
Para Monisi Costa, head de Pagamentos da Vindi, a diversificação mostra que o consumidor está cada vez mais acostumado com a lógica da recorrência.
“Os consumidores estão mais familiarizados com pagamentos recorrentes, experimentam novos formatos de conteúdo, acompanham lançamentos e incorporam diferentes serviços ao seu dia a dia, seja para lazer ou ferramenta de trabalho, como vemos com a Inteligência Artificial”, explica.
A presença da IA entre as categorias consumidas por assinatura também mostra uma mudança importante no comportamento digital.
Se o streaming ajudou a consolidar a assinatura como modelo de acesso ao entretenimento, ferramentas de inteligência artificial podem ampliar essa lógica para serviços relacionados à produtividade.
O consumidor deixa de pagar apenas por conteúdo e passa a contratar, de forma recorrente, ferramentas capazes de apoiar tarefas e atividades do dia a dia.
Nuvem, alimentação e pet ampliam a diversidade
A expansão do mercado brasileiro de assinaturas também é impulsionada por categorias que, até alguns anos atrás, tinham participação mais restrita nesse modelo.
Os serviços de nuvem são utilizados por 43% dos entrevistados.
O crescimento da digitalização da rotina ajuda a explicar esse movimento. Fotos, documentos, arquivos profissionais e outros conteúdos passaram a depender cada vez mais de serviços digitais para armazenamento e acesso.
O pagamento recorrente permite ampliar a capacidade de armazenamento conforme a necessidade do usuário, transformando o serviço em uma despesa mensal ou periódica.
A alimentação aparece logo em seguida, com 42% de adesão.
O resultado mostra como a lógica da recorrência está avançando para o consumo físico e cotidiano.
Clubes, planos de entrega e outros modelos baseados em frequência podem transformar compras que antes aconteciam de forma pontual em uma relação contínua entre consumidor e empresa.
O segmento pet também começa a ganhar espaço.
Segundo o levantamento, 23% dos entrevistados utilizam serviços ou produtos relacionados aos animais de estimação dentro de modelos recorrentes.
A expansão dessas categorias reforça uma tendência de diversificação.
O mercado de assinaturas deixa de depender apenas de grandes plataformas digitais e passa a incluir negócios de diferentes setores, com propostas adaptadas a necessidades específicas dos consumidores.
Consumidor mais seletivo mesmo com expectativa de crescimento
Apesar da expectativa de aumento dos gastos com assinaturas nos próximos anos, o cenário econômico torna o consumidor mais atento ao valor cobrado e à qualidade do serviço recebido.
A contratação de uma nova assinatura passou a disputar espaço com outras despesas mensais.
Diferentemente de uma compra pontual, um serviço recorrente representa um compromisso que pode permanecer por meses ou anos no orçamento.
Por isso, consumidores avaliam com mais atenção quais serviços realmente utilizam e quais ainda fazem sentido manter.
A pesquisa mostra que 47% afirmam que seus gastos com assinaturas permaneceram iguais nos últimos 12 meses.
Outros 35% dizem que os gastos aumentaram, enquanto 18% relatam redução.
Para os próximos 12 meses, a expectativa é de maior estabilidade. A maioria, 62%, pretende manter os gastos no mesmo patamar.
A perspectiva mostra que o mercado pode continuar crescendo, mas esse avanço não significa necessariamente que os consumidores aceitarão qualquer nova assinatura.
Empresas que trabalham com recorrência precisam demonstrar valor de forma contínua.
Uma assinatura pode ser cancelada rapidamente quando o consumidor deixa de perceber utilidade, qualidade ou vantagem econômica.
Nesse ambiente, conquistar um cliente é apenas uma parte do desafio.
Mantê-lo passa a ser igualmente importante.
Faixas de gasto mais altas ganham espaço
O levantamento também identificou mudanças no valor mensal destinado pelos brasileiros a assinaturas, planos e mensalidades.
Em 2026, 29% dos consumidores afirmam gastar entre R$ 51 e R$ 100 por mês com serviços recorrentes.
Outros 29% desembolsam entre R$ 101 e R$ 200 mensais.
A participação dos consumidores que gastam entre R$ 201 e R$ 500 também aumentou.
Neste ano, o grupo representa 17% dos entrevistados.
Em 2025, eram 14%. Em 2024, 11%.
Ao mesmo tempo, a participação das faixas de menor gasto vem diminuindo.
Os consumidores que desembolsam entre R$ 11 e R$ 50 por mês representavam 27% dos entrevistados em 2024.
O percentual caiu para 23% em 2025 e chegou a 19% em 2026.
O movimento indica que mais categorias estão sendo incorporadas ao orçamento mensal.
Em vez de uma ou duas assinaturas ligadas ao entretenimento, parte dos consumidores passou a reunir serviços de diferentes áreas.
Streaming, música, armazenamento em nuvem, inteligência artificial, educação, saúde e outras categorias podem coexistir no orçamento.
O resultado é um crescimento gradual do valor total destinado à recorrência.
Cartão de crédito continua líder
O cartão de crédito permanece como o principal meio de pagamento das assinaturas no Brasil.
Segundo o estudo, 65% dos consumidores utilizam o cartão para pagar serviços recorrentes.
A posição de liderança está relacionada à própria dinâmica das cobranças.
O cartão permite que pagamentos subsequentes sejam realizados sem a necessidade de uma nova ação do consumidor a cada ciclo.
O Pix aparece como o segundo meio mais utilizado, com 16%.
Apesar da relevância crescente do sistema de pagamentos instantâneos no mercado brasileiro, sua participação em assinaturas ainda evoluiu de forma mais lenta.
Em 2024, o Pix era utilizado por 14% dos consumidores para pagamentos recorrentes.
O percentual passou para 13% em 2025 e chegou a 16% em 2026.
Na sequência aparecem o débito em conta corrente, com 9%, o boleto bancário, com 5%, as carteiras digitais, com 3%, e o cartão da loja, com 2%.
Para Monisi Costa, a dinâmica tradicional do Pix ajudou a limitar sua expansão no mercado de recorrência.
“O cartão de crédito ainda mantinha até pouco tempo uma vantagem estrutural por permitir cobranças subsequentes sem ação do consumidor, o que pode ter segurado um pouco esse avanço do Pix. No Pix recorrente convencional, o consumidor ainda precisava acessar a cobrança e efetuar o pagamento a cada ciclo. Essa dinâmica muda com o Pix automático, que automatiza essa cobrança, a partir de uma única autorização do consumidor”, explica.
A expectativa é que a evolução dos mecanismos de cobrança automática possa ampliar a presença do Pix no mercado de assinaturas.
Para empresas que trabalham com recorrência, a diversificação dos meios de pagamento pode representar uma oportunidade de reduzir barreiras para consumidores que não desejam utilizar cartão de crédito.
Retenção se torna tão importante quanto aquisição
O crescimento do mercado também aumenta a concorrência pela atenção e pelo orçamento dos consumidores.
Cada nova assinatura passa a disputar espaço com serviços que já fazem parte da rotina.
Isso significa que empresas não podem depender apenas da aquisição de novos clientes.
A retenção passa a ser uma das principais variáveis para a sustentabilidade de modelos baseados em recorrência.
Preço, qualidade, facilidade de uso e percepção de valor influenciam diretamente a decisão de manter ou cancelar uma assinatura.
A experiência de pagamento também ganha relevância.
Cobranças que falham, processos burocráticos e dificuldades para atualizar informações podem gerar cancelamentos involuntários ou aumentar a insatisfação do cliente.
Para plataformas e empresas que trabalham com recorrência, o desafio é acompanhar o consumidor durante toda a jornada.
A relação não termina depois da primeira venda.
Cada novo ciclo de cobrança representa uma oportunidade para o cliente reavaliar se o serviço continua valendo a pena.
A diversificação observada pelo Relatório Assinaturas 2026 reforça justamente esse ponto.
Quanto mais categorias entram no modelo de recorrência, maior será a disputa pelo orçamento mensal.
Um mercado cada vez mais presente no cotidiano
Os dados do levantamento indicam que o mercado brasileiro de assinaturas está passando por uma mudança estrutural.
O modelo que ganhou força inicialmente com serviços de entretenimento passou a alcançar atividades consideradas essenciais e ferramentas utilizadas diariamente.
Internet, energia, celular, armazenamento digital, inteligência artificial, educação, alimentação, fitness e serviços relacionados a animais de estimação agora fazem parte desse universo.
A expansão também mostra que o consumidor brasileiro está cada vez mais acostumado a pagar pelo acesso contínuo, em vez de realizar apenas compras pontuais.
Para as empresas, a oportunidade está em desenvolver serviços que consigam fazer parte da rotina de seus clientes.
Mas a mesma característica que impulsiona o crescimento aumenta a exigência.
Uma assinatura representa uma cobrança recorrente e, por isso, precisa justificar continuamente sua presença no orçamento.
O cenário econômico tende a reforçar essa seletividade.
O consumidor pode até aumentar o número de serviços utilizados, mas deve continuar avaliando preço e qualidade antes de manter um pagamento mensal.
Nesse contexto, o futuro do mercado de assinaturas brasileiro pode depender menos da criação de novas cobranças e mais da capacidade das empresas de entregar valor de forma constante.
A inteligência artificial, os serviços em nuvem, a alimentação e o segmento pet mostram que ainda existem novos espaços para o modelo crescer.
O streaming continua dominante, mas já não define sozinho o mercado.
A recorrência está se tornando uma parte cada vez mais ampla da economia digital e do consumo cotidiano, criando oportunidades para empresas de diferentes setores e, ao mesmo tempo, tornando a disputa pela fidelidade do consumidor mais intensa.
Sobre a pesquisa
O Relatório Assinaturas 2026 foi produzido pela Vindi em parceria com o Opinion Box.
O levantamento ouviu 1.040 pessoas pela internet entre junho e julho de 2026.
Os entrevistados são de todas as regiões do Brasil, e a pesquisa possui margem de erro de três pontos percentuais.




