Uma startup catarinense quer mudar a lógica tradicional do mercado imobiliário brasileiro ao oferecer profissionais dedicados exclusivamente aos interesses de quem compra imóveis. Fundada pelo corretor Theo Girolamo, a House Hunter inicia suas operações com foco no litoral de Santa Catarina e aposta em um modelo inspirado no chamado buyer’s agent, difundido nos Estados Unidos. A empresa projeta intermediar R$ 37,5 milhões em imóveis no primeiro ano de atuação e pretende expandir posteriormente para São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.
A proposta parte de uma mudança de perspectiva em um mercado historicamente organizado em torno dos imóveis disponíveis para venda. Em vez de apresentar ao consumidor uma carteira própria de propriedades, a House Hunter afirma que começará o atendimento pela demanda do comprador, identificando critérios como localização, orçamento, finalidade da compra e características desejadas antes de iniciar uma busca ativa no mercado.
A startup não pretende manter estoque próprio de imóveis nem representar proprietários interessados em vender suas propriedades. A ideia é que o comprador tenha um profissional dedicado à procura, curadoria, análise e negociação das oportunidades disponíveis no mercado.
O modelo chega em um momento de crescimento das negociações imobiliárias no país. Dados dos Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a CBIC, apontam que o mercado brasileiro comercializou 110.722 unidades residenciais no primeiro trimestre de 2026, alta de 4,1% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
É nesse ambiente que a House Hunter pretende conquistar espaço com uma proposta voltada à representação do comprador.
Uma mudança na lógica da compra de imóveis
No modelo tradicional, o consumidor interessado em comprar um imóvel costuma procurar diferentes imobiliárias, analisar anúncios e negociar com profissionais que, em muitos casos, representam diretamente os proprietários ou os imóveis disponíveis em suas carteiras.
A proposta da House Hunter é inverter esse ponto de partida.
O cliente informa o que procura e a empresa inicia uma busca no mercado. O processo considera fatores como região, faixa de investimento, finalidade da aquisição e características específicas da propriedade desejada.
Segundo Theo Girolamo, fundador e CEO da startup, a ausência de uma carteira própria é um dos elementos centrais do modelo de negócio.
“O mercado imobiliário brasileiro foi estruturado a partir de quem tem um imóvel para vender. A nossa proposta é começar pelo outro lado: entender exatamente o que o comprador procura e buscar no mercado as opções mais adequadas ao seu perfil, sem um estoque próprio que precise ser comercializado. O vendedor continua com seu corretor e o comprador passa a ter um profissional dedicado totalmente aos seus interesses. Na imobiliária tradicional a busca é pela comissão total de 6% e no nosso caso trabalhamos somente pelos 3% e o comprador não paga nada a mais por isso”, explica Girolamo.
A empresa pretende atuar inicialmente no segmento de imóveis de médio e alto padrão no litoral de Santa Catarina, região que concentra uma parcela relevante do mercado imobiliário de maior valor no Sul do país.
O planejamento prevê, posteriormente, ampliar a atuação para outras praças estratégicas. São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba aparecem entre os próximos mercados previstos no plano de expansão da startup.
Modelo inspirado no buyer’s agent dos Estados Unidos
A inspiração para o negócio está no modelo conhecido internacionalmente como buyer’s agent, expressão utilizada especialmente nos Estados Unidos para identificar profissionais que representam exclusivamente os interesses do comprador durante uma transação imobiliária.
Nesse formato, comprador e vendedor podem contar com profissionais diferentes ao longo da negociação.
A House Hunter pretende adaptar essa lógica ao mercado brasileiro, oferecendo um serviço de busca ativa e representação do comprador sem concentrar sua operação em uma carteira própria de imóveis anunciados.
A proposta também busca reduzir uma das dificuldades enfrentadas por consumidores durante a procura por imóveis: o excesso de ofertas e a necessidade de analisar diferentes opções disponíveis em várias imobiliárias, portais e redes de contatos.
Em vez de o cliente realizar essa busca individualmente, o profissional responsável pelo atendimento passa a procurar oportunidades que estejam alinhadas aos critérios definidos.
A startup afirma que pretende apresentar entre três e cinco imóveis considerados mais aderentes ao perfil de cada comprador.
A seleção será feita depois de uma etapa de filtragem das ofertas recebidas pela rede de parceiros.
Busca começa com entrevista e definição de critérios
O processo desenhado pela House Hunter começa com uma entrevista para entender as necessidades do comprador.
Nessa etapa, serão definidos aspectos como o objetivo da aquisição, a região de interesse, a faixa de investimento disponível e as características consideradas importantes para a escolha do imóvel.
A finalidade da compra também pode influenciar a busca. Um imóvel adquirido para moradia permanente, por exemplo, pode exigir critérios diferentes de uma propriedade destinada a investimento, uso temporário ou segunda residência.
Depois da definição do perfil, o comprador recebe um código utilizado durante o processo de procura.
Segundo o planejamento da empresa, a identidade do cliente será preservada até o momento da visita ao imóvel.
O perfil definido é então levado à rede de parceiros e profissionais do mercado. As ofertas recebidas passam por uma curadoria antes de serem apresentadas ao comprador.
A proposta é reduzir o número de opções que chegam ao cliente e concentrar o atendimento em propriedades que apresentem maior compatibilidade com a demanda inicial.
Esse processo busca transferir parte da complexidade da pesquisa imobiliária para o profissional responsável pela representação do comprador.
A empresa também prevê apoio durante etapas posteriores da negociação, incluindo análise jurídica do imóvel selecionado e suporte ao fechamento.
Tecnologia e curadoria humana devem atuar juntas
Embora o modelo de negócio esteja relacionado à busca ativa no mercado imobiliário, a House Hunter também pretende utilizar ferramentas tecnológicas para organizar o relacionamento com clientes e administrar os mandatos de compra.
Segundo o CEO, a curadoria das oportunidades continuará tendo participação humana.
A empresa pretende utilizar sistemas de CRM para gerenciar informações dos clientes, acompanhar as demandas e organizar as etapas do processo.
A combinação entre tecnologia e análise profissional aparece como parte da estratégia para tornar a busca mais organizada sem transformar a escolha do imóvel em um processo exclusivamente automatizado.
A utilização de dados pode ajudar a organizar preferências e cruzar informações sobre localização, orçamento e características das propriedades. A decisão final, no entanto, envolve elementos que vão além das informações objetivas disponíveis em uma plataforma.
A escolha de um imóvel pode considerar fatores como estilo de vida, percepção sobre determinada região, proximidade de serviços e características que nem sempre aparecem em filtros tradicionais de busca.
Por isso, a House Hunter pretende manter profissionais responsáveis pela interpretação das necessidades apresentadas por cada cliente.
Mercado imobiliário mantém ritmo de negócios em 2026
A aposta da startup acontece em um cenário de movimentação relevante no setor imobiliário brasileiro.
Segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC, 110.722 unidades residenciais foram comercializadas no primeiro trimestre de 2026.
O resultado representa crescimento de 4,1% em relação ao mesmo período de 2025.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do mercado no qual empresas de tecnologia, consultorias, imobiliárias e novos modelos de intermediação procuram espaço.
O processo de compra de um imóvel, especialmente em segmentos de médio e alto padrão, envolve valores elevados e uma série de decisões que podem incluir análise documental, negociação de preço, comparação entre propriedades e avaliação das condições do mercado.
Nesse contexto, a proposta de ter um profissional voltado exclusivamente à representação do comprador pode encontrar espaço entre consumidores que buscam um atendimento mais personalizado.
Ao mesmo tempo, o modelo precisará demonstrar sua capacidade de construir uma rede ampla de parceiros e acessar oportunidades disponíveis em diferentes regiões.
A ausência de uma carteira própria, que a empresa apresenta como diferencial, também torna a qualidade da rede comercial e da capacidade de busca fatores importantes para a operação.
Meta é alcançar R$ 37,5 milhões em intermediações
Para o primeiro ano de operação, a House Hunter projeta alcançar R$ 37,5 milhões em Valor Geral de Venda, o chamado VGV, por meio das intermediações realizadas.
O indicador representa o valor total dos imóveis negociados pela empresa durante o período.
A meta está ligada à estratégia inicial de concentração no mercado catarinense, com foco em compradores de imóveis de médio e alto padrão no litoral do estado.
A escolha da região acompanha o histórico de valorização e desenvolvimento do mercado imobiliário catarinense, especialmente em cidades litorâneas que atraem compradores de diferentes regiões do país.
A empresa pretende utilizar essa primeira fase como base para testar e consolidar o modelo antes de avançar para outros mercados.
São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba aparecem no planejamento como cidades para uma segunda etapa de expansão.
O plano de negócios também prevê o atendimento a estrangeiros interessados em adquirir imóveis no Brasil.
A possibilidade de representar compradores internacionais pode ampliar o escopo da empresa, especialmente em mercados que recebem investidores ou consumidores interessados em propriedades para moradia, lazer ou investimento.
Marketplace reverso está entre os planos futuros
A estratégia da House Hunter também inclui uma possível evolução tecnológica do modelo de negócio.
Em uma etapa posterior, a empresa pretende transformar parte da busca ativa em um marketplace reverso.
Nesse formato, os perfis dos compradores poderiam ser disponibilizados de forma anônima para o mercado vendedor.
Em vez de apenas o comprador procurar imóveis anunciados, proprietários, corretores e profissionais do setor poderiam apresentar oportunidades compatíveis com os critérios definidos pelos clientes.
O conceito altera a dinâmica tradicional dos marketplaces imobiliários.
Normalmente, as plataformas concentram anúncios de imóveis e os consumidores realizam buscas utilizando filtros.
No modelo projetado pela House Hunter, a demanda do comprador passa a ser um dos elementos centrais da plataforma.
Os profissionais que representam imóveis disponíveis poderiam identificar perfis compatíveis e apresentar oportunidades ao corretor responsável pelo comprador.
A ideia ainda está prevista como uma etapa posterior do plano de negócios e dependerá da consolidação da operação inicial.
Sigilo durante a busca é parte da proposta
Outro elemento apresentado pela startup é a preservação da identidade do comprador durante a fase de procura.
O cliente recebe um código e seu perfil é utilizado para a busca de oportunidades sem exposição imediata de sua identidade.
Segundo a empresa, as informações pessoais permanecem preservadas até a etapa de visita ao imóvel.
O recurso pode ser especialmente relevante para compradores de imóveis de maior valor, investidores e consumidores que preferem discrição durante a procura.
A busca por propriedades pode envolver contatos com diferentes corretores, proprietários e imobiliárias.
Ao centralizar esse processo em um representante, o comprador reduz a necessidade de compartilhar diretamente suas informações com um grande número de profissionais.
A proposta também reforça a ideia de que o serviço funciona como uma consultoria voltada ao lado comprador da negociação.
Fundador tem 21 anos e cresceu em contato com o setor
A House Hunter foi fundada por Theo Girolamo, corretor imobiliário de 21 anos que, segundo a empresa, cresceu em contato com uma imobiliária tradicional.
A experiência contribuiu para a percepção sobre a forma como o mercado está estruturado e inspirou a criação de uma operação focada na representação do comprador.
A startup entra em um setor tradicionalmente formado por imobiliárias, corretores independentes, incorporadoras e plataformas digitais.
A estratégia da empresa é ocupar uma posição diferente nessa cadeia, concentrando sua atuação na busca, curadoria e negociação em nome do cliente comprador.
O modelo não elimina a participação de corretores que representam proprietários.
A proposta é que os dois lados possam contar com profissionais distintos.
Essa divisão pode tornar mais clara a representação de interesses durante a negociação, embora sua aplicação em maior escala no mercado brasileiro ainda dependa da aceitação dos consumidores e da capacidade da empresa de consolidar sua rede de parceiros.
Uma nova tentativa de reorganizar a jornada imobiliária
A chegada de novos modelos ao mercado imobiliário acompanha mudanças no comportamento dos consumidores e na digitalização das etapas de busca.
Plataformas online facilitaram o acesso a informações e aumentaram a quantidade de imóveis disponíveis para pesquisa.
Ao mesmo tempo, o excesso de ofertas pode tornar a seleção mais complexa.
Para compradores que procuram imóveis específicos ou possuem critérios detalhados, encontrar a propriedade adequada pode exigir contato com diferentes empresas e profissionais.
É nesse ponto que a House Hunter pretende atuar.
A startup quer transformar a procura por um imóvel em um processo mais semelhante à contratação de uma consultoria personalizada.
O comprador define a demanda. O mercado é pesquisado. As opções passam por filtragem. E apenas as propriedades consideradas mais compatíveis chegam à etapa final de análise.
A aposta da empresa é que essa lógica possa ganhar espaço em um mercado que continua registrando elevado volume de transações.
Com uma projeção de R$ 37,5 milhões em VGV no primeiro ano, foco inicial no litoral catarinense e planos de expansão para outras grandes cidades brasileiras, a House Hunter inicia sua operação tentando introduzir no país uma lógica já difundida em outros mercados.
O sucesso do modelo dependerá da capacidade de demonstrar ao consumidor que representar exclusivamente o comprador pode oferecer uma experiência diferente da busca imobiliária tradicional.
Para Theo Girolamo, a principal mudança está justamente no ponto de partida da negociação.
Em vez de começar pelo imóvel que alguém quer vender, a empresa quer começar pela necessidade de quem está disposto a comprar.




