Micro e pequenas empresas brasileiras terão de tomar uma decisão estratégica até 30 de setembro de 2026 que poderá influenciar o fluxo de caixa, a formação de preços e a competitividade dos negócios a partir de 2027. Com a nova etapa da Reforma Tributária, empresas optantes pelo Simples Nacional precisarão avaliar se manterão o recolhimento do IBS e da CBS dentro do modelo tradicional do regime ou se adotarão uma sistemática híbrida, que permitirá a apuração desses tributos pelo sistema de créditos e débitos.
A escolha terá efeitos a partir de janeiro de 2027 e, inicialmente, valerá durante todo o primeiro semestre do ano. Para empresas que desejam ingressar no Simples Nacional em 2027, o período de opção também muda excepcionalmente neste ciclo: a solicitação deverá ser feita entre 1º e 30 de setembro de 2026, e não em janeiro, como tradicionalmente ocorre.
A mudança amplia a importância do planejamento tributário para micro e pequenas empresas. Pela primeira vez, negócios enquadrados no Simples Nacional poderão permanecer no regime simplificado para os demais tributos e, ao mesmo tempo, optar por recolher o IBS e a CBS dentro da nova lógica de creditamento prevista pela Reforma Tributária.
Na prática, a decisão pode ter consequências que vão além do valor dos impostos. Perfil dos clientes, margem de lucro, volume de compras, possibilidade de aproveitamento de créditos, fluxo de caixa e estratégia de precificação deverão entrar na análise.
Para a contadora e advogada tributarista Patrícia Antonacci Neves, especialista da GestãoClick, plataforma de gestão empresarial voltada a micro e pequenas empresas, o principal risco é transformar uma decisão estratégica em uma simples comparação de alíquotas.
“Não existe uma resposta única sobre qual modelo será melhor. O empresário precisa olhar para o funcionamento real do negócio: quem são seus clientes, para quem vende, quais são seus custos, sua margem e como os créditos tributários podem impactar sua cadeia. Uma escolha feita apenas olhando a alíquota pode parecer vantajosa no papel e trazer um resultado diferente no caixa”, explica Patrícia.
Simples Nacional terá modelo tradicional e alternativa híbrida
A principal novidade está na possibilidade de escolha sobre a forma de recolhimento do IBS e da CBS, tributos que fazem parte da nova estrutura criada pela Reforma Tributária.
No chamado Simples Nacional puro, ou tradicional, o IBS e a CBS permanecerão dentro do recolhimento unificado do regime. Isso significa que os tributos continuarão integrados à guia mensal do Documento de Arrecadação do Simples Nacional, conhecido como DAS.
Caso a empresa não faça uma opção específica durante o período estabelecido, essa será a regra aplicada inicialmente para o primeiro semestre de 2027.
A alternativa será o chamado modelo híbrido.
Nesse formato, a empresa continuará enquadrada no Simples Nacional para os demais tributos, mas passará a apurar e recolher o IBS e a CBS fora da guia única, utilizando a lógica de débito e crédito prevista na nova sistemática tributária.
O mecanismo está diretamente relacionado ao conceito de IVA, sigla para Imposto sobre o Valor Agregado.
Na prática, despesas e aquisições relacionadas à atividade operacional da empresa poderão gerar créditos tributários, conforme as regras e alíquotas aplicáveis. Esses créditos poderão ser utilizados para reduzir o valor dos débitos gerados nas vendas de produtos ou serviços.
Assim, o imposto incidirá sobre o valor agregado ao longo da cadeia econômica.
A mudança representa uma diferença significativa em relação ao funcionamento tradicional do Simples Nacional.
No regime puro, segundo a análise apresentada pela GestãoClick, as compras e contratações realizadas pela empresa não geram créditos na mesma lógica prevista pelo novo sistema. Além disso, o crédito repassado aos clientes nas operações subsequentes tende a ser limitado ao percentual incluído na guia única de arrecadação.
No modelo híbrido, por outro lado, a possibilidade de geração e aproveitamento de créditos pode alterar a posição competitiva de determinadas empresas dentro de suas cadeias comerciais.
Empresas que vendem para outras empresas devem avaliar impacto
A mudança pode ganhar ainda mais importância para negócios que atuam majoritariamente no mercado B2B, ou seja, que vendem produtos ou serviços para outras empresas.
Isso ocorre porque a tributação do fornecedor pode influenciar a capacidade do cliente de aproveitar créditos tributários.
Uma empresa que opta pelo regime híbrido para IBS e CBS pode gerar mais créditos para os compradores de seus produtos ou serviços. Como consequência, os negócios que estão nas etapas seguintes da cadeia podem ter uma carga tributária menor sobre determinadas operações.
Esse fator pode influenciar a decisão de compra entre empresas.
“Uma pequena empresa que atende majoritariamente outras pessoas jurídicas precisa entender como sua escolha repercute no cliente. A discussão deixa de ser apenas ‘quanto imposto eu pago’ e passa a incluir ‘como minha tributação interfere na cadeia e na decisão de compra de quem faz negócio comigo’”, afirma Patrícia Antonacci Neves.
O cenário amplia a complexidade da decisão para empresários que tradicionalmente analisavam o Simples Nacional principalmente a partir da simplicidade operacional e do valor consolidado da tributação.
A partir da nova sistemática, a estratégia tributária poderá se conectar diretamente à competitividade comercial.
Uma empresa poderá precisar avaliar não apenas o impacto do imposto sobre seu próprio caixa, mas também a forma como seu modelo de tributação influencia a relação com clientes, fornecedores e parceiros.
Decisão pode afetar fluxo de caixa e margem
Segundo a especialista da GestãoClick, a escolha entre os dois modelos exige simulações baseadas em dados reais da operação.
Antes de decidir, o empresário deve avaliar indicadores como faturamento, custos, margem de lucro, perfil dos clientes e volume de compras que poderão gerar créditos tributários.
Também será necessário calcular o impacto financeiro de cada cenário.
O alerta ganha relevância porque parte das micro e pequenas empresas ainda trabalha com informações fiscais e financeiras de forma separada ou utiliza controles manuais para acompanhar custos, vendas e resultados.
Com a Reforma Tributária, a tendência é que as informações fiscais passem a ter uma conexão ainda maior com a gestão financeira.
“Esse é um dos pontos que temos reforçado: gestão fiscal e gestão financeira são diferentes, mas precisam conversar. Se o empresário não sabe com precisão quanto custa vender, qual é sua margem por operação e para quem está vendendo, fica muito mais difícil tomar uma decisão tributária estratégica”, explica Patrícia.
A mudança pode exigir uma revisão da forma como pequenos negócios acompanham suas operações.
Dados sobre compras, estoque, vendas, notas fiscais e margens podem se tornar ainda mais importantes para a tomada de decisões.
Empresas que possuem essas informações organizadas terão melhores condições de simular cenários antes de definir qual modelo de recolhimento será mais adequado à sua realidade.
Reforma Tributária também pode provocar revisão de preços
Outro ponto que deve entrar na análise dos empresários é a precificação.
Dependendo do modelo escolhido e das características de cada operação, a empresa poderá precisar rever preços e margens para se adaptar às mudanças que entram em vigor em 2027.
Para Patrícia Antonacci Neves, o processo de análise não deve ser deixado para os últimos meses do ano.
A recomendação é aproveitar o período anterior à entrada em vigor das mudanças para realizar simulações e identificar possíveis riscos para a rentabilidade.
“Preço não pode mais ser definido simplesmente adicionando uma margem sobre o custo. Tributação, créditos, destino da venda e perfil do cliente passam a fazer parte dessa conta. Quanto antes a empresa conseguir enxergar esses impactos, maior será sua capacidade de ajustar a operação sem precisar tomar decisões emergenciais”, destaca a especialista.
A declaração mostra uma das principais mudanças trazidas pela Reforma Tributária para a gestão dos pequenos negócios.
A definição de preços poderá exigir uma análise mais ampla, considerando não apenas o custo do produto ou serviço e a margem desejada, mas também o funcionamento da cadeia tributária.
Para empresas que trabalham com diferentes tipos de clientes, a situação pode ser ainda mais complexa.
Um negócio que atende tanto consumidores finais quanto outras empresas, por exemplo, poderá precisar analisar como cada mercado é impactado pela escolha tributária.
O perfil das vendas B2B e B2C passa, portanto, a fazer parte da análise estratégica.
Setembro muda calendário para ingresso no Simples Nacional
Além da decisão relacionada ao IBS e à CBS, o calendário para ingresso no Simples Nacional também terá uma mudança importante para o ciclo de 2027.
Empresas que desejam entrar no regime no próximo ano deverão solicitar a opção entre 1º e 30 de setembro de 2026.
A alteração é excepcional para este período e antecipa uma decisão que tradicionalmente ocorre em janeiro.
Empresas que já estão enquadradas no Simples Nacional não precisam realizar uma nova solicitação para permanecer no regime, exceto em situações específicas que envolvam eventual exclusão futura.
No entanto, essas empresas precisarão avaliar a forma como desejam recolher o IBS e a CBS.
A decisão entre manter os tributos dentro do Simples ou optar pelo regime regular para esses dois impostos terá validade inicial entre janeiro e junho de 2027.
A regulamentação também prevê uma nova janela de opção em março de 2027 para decisões relacionadas ao segundo semestre.
O novo calendário reforça a necessidade de planejamento antecipado.
Empresários que deixarem a análise para os últimos dias do prazo poderão ter menos tempo para organizar informações, consultar especialistas e realizar simulações.
Planejamento tributário passa a ser decisão estratégica
Para a GestãoClick, uma das principais mudanças provocadas pela Reforma Tributária é a aproximação entre a gestão fiscal e as decisões estratégicas das empresas.
Durante muitos anos, parte dos pequenos empresários tratou a tributação principalmente como uma obrigação que ocorria após a realização da venda.
A nova estrutura tende a mudar essa lógica.
Informações tributárias poderão influenciar diretamente decisões relacionadas à precificação, ao estoque, à escolha de fornecedores, ao relacionamento com clientes e ao fluxo de caixa.
“Durante muito tempo, o pequeno empresário conseguiu olhar para tributação como uma obrigação posterior à venda. A Reforma Tributária muda essa lógica. Cada vez mais, a informação fiscal estará conectada à precificação, ao estoque, ao relacionamento com fornecedores e clientes e ao fluxo de caixa. Quem tiver dados organizados terá muito mais condições de decidir bem”, conclui Patrícia Antonacci Neves.
O desafio, portanto, não será apenas compreender as novas regras.
As empresas também precisarão transformar informações operacionais em dados que ajudem na tomada de decisões.
Negócios que conhecem detalhadamente seus custos, margens, clientes e volume de compras terão mais condições de comparar os impactos dos diferentes modelos tributários.
Já empresas que dependem exclusivamente de controles manuais ou possuem informações descentralizadas podem enfrentar maior dificuldade para avaliar os cenários.
O que analisar antes de escolher o modelo em 2027
Antes de decidir entre manter o IBS e a CBS dentro do Simples Nacional ou optar pelo modelo híbrido, a recomendação é realizar uma análise detalhada da operação.
A GestãoClick aponta alguns fatores que devem entrar nessa avaliação.
O primeiro deles é o perfil dos clientes.
Empresas que vendem principalmente para consumidores finais podem ter uma realidade diferente daquelas que atuam predominantemente no mercado B2B.
Também é necessário avaliar o faturamento e a margem dos principais produtos ou serviços.
Essas informações ajudam a compreender como a tributação pode afetar a rentabilidade das operações.
Outro ponto importante é o volume de compras e contratações que podem gerar créditos tributários.
No modelo híbrido, a capacidade de aproveitamento desses créditos pode influenciar diretamente o resultado financeiro.
O impacto sobre o fluxo de caixa também deve ser analisado.
Uma escolha aparentemente vantajosa em termos tributários pode produzir efeitos diferentes dependendo do momento de pagamento, do ciclo financeiro da empresa e da estrutura de custos.
A precificação é outro fator central.
Empresas podem precisar revisar seus preços para preservar margens ou manter a competitividade diante das novas regras.
Por fim, a organização das informações fiscais e financeiras será essencial.
Cadastros de produtos, compras, estoque e notas fiscais precisarão estar organizados para permitir uma análise confiável dos diferentes cenários.
A recomendação é que as simulações sejam realizadas com o apoio de um contador e tenham como base os dados reais da operação.
Comparações genéricas ou decisões baseadas apenas na alíquota podem não refletir a realidade de cada empresa.
Escolha pode definir competitividade das pequenas empresas
A decisão que precisa ser analisada até setembro representa uma das primeiras escolhas estratégicas das micro e pequenas empresas dentro da nova fase da Reforma Tributária.
Mais do que decidir como pagar impostos, empresários terão de avaliar como o modelo escolhido poderá afetar a relação com clientes, a formação de preços, a margem e o fluxo de caixa.
A possibilidade de permanecer no Simples Nacional e, ao mesmo tempo, utilizar uma sistemática diferente para IBS e CBS amplia as alternativas, mas também aumenta a necessidade de planejamento.
Não existe, segundo a especialista, uma escolha universalmente melhor.
O resultado dependerá da estrutura e do funcionamento de cada negócio.
Empresas com diferentes perfis de clientes, custos e operações podem chegar a conclusões distintas.
Por isso, os próximos meses devem ser utilizados para organizar informações, revisar processos e simular cenários.
A Reforma Tributária tende a transformar a gestão fiscal em uma área cada vez mais conectada às decisões comerciais e financeiras.
Para o pequeno empresário, a capacidade de compreender os números do próprio negócio pode se tornar um dos principais diferenciais para enfrentar a nova realidade tributária.
A escolha entre o Simples Nacional tradicional e o modelo híbrido para IBS e CBS será, portanto, mais do que uma decisão burocrática.
Ela poderá influenciar diretamente o caixa, a margem e a competitividade das micro e pequenas empresas a partir de 2027.




