Grandes varejistas terão os últimos meses de 2026 para revisar sistemas, cadastros, processos fiscais e a relação com fornecedores antes da nova etapa da Reforma Tributária do Consumo, prevista para começar a produzir efeitos mais amplos em janeiro de 2027. A preparação ganha importância com a chegada da apuração assistida, modelo que amplia o peso das informações presentes nos documentos fiscais eletrônicos e pode fazer com que erros de classificação, cadastro ou parametrização afetem diretamente créditos tributários, fluxo de caixa e a operação das empresas.
A avaliação é da Decision IT, empresa do Grupo TecnoSpeed, que acompanha projetos de adequação em grandes companhias. Segundo a empresa, o segundo semestre de 2026 representa uma janela importante para testes e correções, especialmente após o avanço do cronograma de implementação, que passou a exigir, desde 3 de agosto, informações relacionadas ao IBS e à CBS nos documentos fiscais abrangidos pela nova legislação.
A mudança exige atenção especial do varejo por causa da escala das operações. Grandes redes trabalham simultaneamente com milhares de produtos, fornecedores e transações, além de diferentes sistemas integrados à rotina comercial e fiscal. Uma única parametrização incorreta pode, portanto, ser reproduzida em milhares de documentos antes que a empresa identifique o problema.
A partir de 2027, PIS e Cofins serão extintos e substituídos pela CBS, enquanto o IBS continuará em sua fase de transição, inicialmente com alíquota de 0,1%. As alíquotas do IPI também serão reduzidas a zero para a maior parte dos produtos, respeitadas as exceções previstas.
Nesse cenário, a qualidade das informações fiscais deixa de ser apenas uma preocupação operacional e passa a ter influência cada vez mais direta sobre a gestão financeira das grandes empresas.
Apuração assistida amplia importância dos dados fiscais
Um dos principais desafios apontados pela Decision IT para 2027 é a consolidação da apuração assistida na rotina das empresas.
Pelo novo modelo, os documentos fiscais eletrônicos emitidos e recebidos passam a ter papel central na composição dos débitos e créditos tributários. Isso significa que informações incorretas podem gerar consequências que vão além de uma simples inconsistência contábil.
Cadastros inadequados, classificações tributárias incorretas ou sistemas parametrizados de maneira equivocada podem afetar o reconhecimento de créditos, a apuração dos tributos e, consequentemente, o fluxo financeiro das companhias.
Para Eduardo Battistella, arquiteto de soluções da Decision IT, reduzir essa mudança a uma simples conferência de valores pode fazer com que as empresas subestimem a dimensão da transformação.
“Tratar a apuração assistida apenas como uma conciliação é reduzir a dimensão do processo. A empresa precisará acompanhar a extinção dos débitos dos fornecedores, emitir documentos de débito quando necessário, integrar informações financeiras e atuar sobre as inconsistências identificadas”, explica.
A nova dinâmica exige, portanto, uma revisão mais ampla da estrutura utilizada pelas empresas para controlar informações fiscais.
No varejo, uma operação pode circular por diferentes plataformas antes de ser concluída. ERP, sistemas de ponto de venda, e-commerce, marketplaces, plataformas financeiras e soluções fiscais fazem parte de uma mesma cadeia de informações.
Além disso, devoluções, cancelamentos, compras realizadas com fornecedores diferentes e alterações nas condições comerciais acrescentam novas variáveis ao processo.
Por esse motivo, especialistas alertam que a preparação para a Reforma Tributária não pode ficar restrita exclusivamente à área fiscal.
Integração entre áreas será fundamental
A adaptação das grandes redes varejistas exige integração entre setores que, durante muito tempo, puderam atuar com processos relativamente independentes.
Fiscal, financeiro, comercial, suprimentos, tecnologia e gestão de produtos precisarão compartilhar informações com maior precisão para evitar inconsistências ao longo da operação.
Uma falha na classificação de um produto, por exemplo, pode ter origem no cadastro comercial, passar pelos sistemas internos e chegar ao documento fiscal de maneira incorreta.
Se o erro não for identificado rapidamente, ele poderá ser repetido em grande escala.
Esse é um dos principais desafios para empresas que trabalham com milhões de documentos fiscais e milhares de operações mensais.
A necessidade de acompanhar continuamente essas informações também tende a alterar a rotina das equipes.
Em vez de concentrar a conferência no encerramento do mês, as empresas precisarão ampliar o acompanhamento dos documentos emitidos e recebidos ao longo das operações.
A comparação entre as informações disponíveis no ambiente fiscal e os registros internos passa a ganhar relevância, assim como a capacidade de identificar e corrigir divergências antes do fechamento.
Para Guilherme Erichsen, gerente comercial da Decision IT, o volume de informações das grandes empresas torna esse tipo de controle incompatível com processos predominantemente manuais.
“Em grandes operações, o tratamento da apuração assistida inevitavelmente precisará ser sistêmico. Uma planilha não conseguirá processar milhões de documentos fiscais nem analisar todas as divergências que podem existir entre os XMLs disponíveis no ambiente do Fisco e aqueles armazenados pela empresa”, afirma.
Angeloni iniciou preparação ainda em 2025
Um dos exemplos citados pela Decision IT é o trabalho desenvolvido pelos Supermercados Angeloni.
A empresa iniciou seu projeto de preparação para a Reforma Tributária ainda em 2025 e estruturou um comitê envolvendo diferentes áreas da companhia.
Segundo Alexandre Dullius, contador responsável pela condução da Reforma Tributária nas Redes Angeloni, foram mapeados 217 requisitos relacionados às mudanças tributárias.
Os itens foram classificados de acordo com critérios como prioridade, impacto, área responsável e responsáveis pela execução.
O trabalho envolve frentes como a revisão dos cadastros de produtos, a adequação dos documentos fiscais, a classificação tributária, o acompanhamento dos fornecedores e a análise dos possíveis efeitos sobre orçamento e fluxo de caixa.
A experiência demonstra a dimensão do trabalho que grandes varejistas terão pela frente.
Não se trata apenas de alterar uma regra dentro de um sistema ou atualizar uma tabela fiscal.
A Reforma Tributária exige uma revisão das informações que alimentam toda a operação.
Produtos que anteriormente eram tratados de maneira mais genérica, por exemplo, passam a exigir uma análise mais detalhada de seus cadastros e classificações.
Esse cuidado se torna importante porque uma mesma informação pode influenciar diferentes etapas da operação.
Fornecedores passam a ter papel ainda mais importante
A relação entre varejistas e fornecedores também deve ganhar uma nova camada de acompanhamento com a implementação do IBS e da CBS.
Pela lógica do IBS, a apropriação de créditos estará, em regra, relacionada à extinção do débito correspondente.
Isso amplia a necessidade de monitorar documentos fiscais e pagamentos ao longo da cadeia de negócios.
No caso do Angeloni, fornecedores passaram a receber orientações para revisar as classificações fiscais utilizadas nas notas emitidas para a rede.
A medida busca reduzir divergências que possam afetar a tributação ou o reconhecimento de créditos.
Essa mudança pode exigir uma relação mais próxima entre compradores e fornecedores, especialmente em cadeias complexas.
Para o varejista, não será suficiente olhar apenas para os próprios processos internos.
A qualidade das informações transmitidas por parceiros comerciais também poderá interferir na operação tributária.
A cadeia passa, assim, a exigir maior coordenação.
Empresas precisarão acompanhar não apenas aquilo que vendem, mas também como compram, quais informações recebem e de que maneira os documentos fiscais são emitidos.
Essa integração pode representar um dos maiores desafios práticos da transição.
Tecnologia deixa de ser apenas suporte operacional
Com a Reforma Tributária, a tecnologia tende a assumir um papel ainda mais estratégico dentro das grandes empresas.
Ferramentas capazes de processar grandes volumes de documentos, comparar informações e identificar divergências rapidamente podem se tornar essenciais para reduzir riscos operacionais.
No varejo, esse desafio é ampliado pela diversidade de canais.
Uma empresa pode realizar vendas em lojas físicas, e-commerce, marketplaces e outros canais digitais.
Cada uma dessas operações pode gerar informações que precisam ser registradas e conciliadas com precisão.
Ao mesmo tempo, processos como devoluções, cancelamentos e alterações comerciais precisam ser considerados dentro da nova dinâmica tributária.
Uma inconsistência aparentemente pequena pode ganhar proporções maiores quando reproduzida em milhares de operações.
Por isso, os sistemas precisam estar preparados não apenas para calcular tributos, mas também para acompanhar o caminho das informações e facilitar a identificação de possíveis problemas.
A expectativa é que o uso de processos automatizados e integrados ganhe espaço como resposta ao aumento da complexidade.
Restante de 2026 será período decisivo para testes
Para a Decision IT, o período restante de 2026 deve ser utilizado pelas empresas como uma fase de preparação e testes antes da ampliação dos efeitos da nova dinâmica tributária em 2027.
Desde agosto, o avanço das exigências relacionadas às informações de IBS e CBS nos documentos fiscais já permite que empresas realizem testes utilizando dados e operações reais.
A oportunidade é considerada importante porque permite identificar problemas antes que a nova estrutura tenha efeitos mais amplos sobre créditos, caixa e processos internos.
A Decision IT afirma que vem realizando consultorias e diagnósticos relacionados à legislação e às Notas Técnicas para apoiar grandes empresas durante a adaptação.
A companhia também está na fase final de desenvolvimento de uma solução voltada à gestão da apuração assistida.
A ferramenta prevê recursos relacionados à gestão de débitos e créditos, acompanhamento de fornecedores, contabilização, rotinas de conciliação para identificação e correção de divergências e integração com sistemas de gestão.
A avaliação é que as empresas que utilizarem os próximos meses para revisar seus processos poderão iniciar 2027 com maior capacidade de acompanhar os impactos da Reforma Tributária.
Para grandes varejistas, a transição representa uma mudança que ultrapassa o departamento fiscal.
A qualidade dos cadastros, a integração dos sistemas, a relação com fornecedores e o monitoramento das operações passam a fazer parte de uma mesma estratégia.
A nova etapa da Reforma Tributária também reforça uma mudança importante na gestão empresarial: dados fiscais deixam de ser apenas registros de operações realizadas e passam a ocupar uma posição mais central nas decisões relacionadas a crédito, fluxo de caixa e eficiência operacional.
Nesse cenário, o desafio das grandes redes será transformar uma obrigação regulatória em um processo capaz de oferecer maior controle sobre a própria operação.
A preparação antecipada pode fazer diferença justamente porque a complexidade do varejo não permite correções simples quando os sistemas já estão processando milhões de informações.
Revisar cadastros, testar parametrizações, envolver fornecedores e integrar áreas será, portanto, parte fundamental da preparação para 2027.
Para o setor, os últimos meses de 2026 representam uma oportunidade para colocar processos à prova, identificar falhas e reduzir riscos antes que a nova realidade tributária esteja plenamente incorporada à rotina das empresas.
Sobre a TecnoSpeed
A TecnoSpeed é uma empresa de tecnologia que oferece soluções fiscais e financeiras para software houses, além de serviços relacionados a assinaturas eletrônicas, certificados digitais, marketplaces e relacionamento com clientes.
Fundada em 2006, a empresa atua com serviços, APIs, componentes fiscais e conteúdos especializados para o setor de tecnologia.
Segundo informações divulgadas pela companhia, a TecnoSpeed atende cerca de 2.000 software houses no Brasil, número que representa aproximadamente 30% das empresas que atuam diretamente no desenvolvimento e produção de software no país.
A empresa também foi reconhecida pelo Financial Times entre as 500 empresas que mais crescem nas Américas em 2024, pelo terceiro ano consecutivo, além de possuir reconhecimentos relacionados ao ambiente de trabalho.




