Especialista alerta para riscos invisíveis que já impactam vendas, visibilidade e decisões no comércio digital brasileiro
O avanço dos algoritmos no e-commerce brasileiro está transformando a forma como empresas vendem, se posicionam e competem no mercado digital. Mais do que logística eficiente ou investimentos em marketing, o desempenho das lojas virtuais passou a depender diretamente de sistemas automatizados que determinam, em segundos, quais produtos ganham destaque e quais desaparecem da vitrine online. O alerta é de Airan Jr., especialista em IA First e membro do Conselho de IA da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM), que aponta riscos estratégicos para empresas que ainda ignoram o funcionamento dessas tecnologias.
Segundo o especialista, a chamada “economia dos algoritmos” já é uma realidade consolidada e afeta diretamente os resultados das empresas. “O desempenho de um negócio deixou de depender só do produto. Ele passa, cada vez mais, pela forma como os dados são interpretados por essas plataformas”, afirma.
A influência invisível dos algoritmos
Embora pouco visíveis para o consumidor final, os algoritmos são hoje protagonistas no ambiente digital. São eles que organizam resultados de busca, sugerem produtos, ajustam preços e determinam a relevância de uma marca dentro das plataformas.
Na prática, isso significa que duas empresas com produtos semelhantes podem ter desempenhos completamente diferentes, dependendo de como seus dados são interpretados por esses sistemas. A lógica deixa de ser apenas comercial e passa a ser também tecnológica.
Essa mudança cria um cenário em que empresas que não acompanham ou não compreendem o funcionamento dos algoritmos correm o risco de perder competitividade rapidamente.
Perda de visibilidade como principal risco
Um dos principais impactos apontados por Airan Jr. é a perda de visibilidade. Quando uma empresa não se adapta às regras das plataformas digitais, ela deixa de aparecer para o consumidor.
“Não se trata apenas de vender menos, mas de se tornar irrelevante para o consumidor”, destaca o especialista.
Esse fenômeno ocorre porque os algoritmos priorizam conteúdos e produtos com base em critérios específicos, como comportamento do usuário, histórico de navegação, performance de vendas e engajamento. Empresas que não otimizam suas estratégias para esses critérios acabam ficando para trás.
Decisões automatizadas e falta de transparência
Outro desafio crescente é a dificuldade de entender decisões tomadas por sistemas automatizados. Preços dinâmicos, recomendações personalizadas e posicionamento de produtos mudam constantemente, muitas vezes sem explicações claras.
Quando os resultados não correspondem às expectativas, identificar a causa se torna um processo complexo. A ausência de transparência nesses sistemas pode gerar insegurança e dificultar ajustes estratégicos.
Esse cenário exige das empresas não apenas ferramentas tecnológicas, mas também capacidade analítica para interpretar dados e identificar padrões.
Dependência de grandes plataformas
A concentração de dados e da atenção do público em grandes plataformas digitais é outro ponto de atenção. Segundo o especialista, essa dependência crescente torna o ambiente de negócios mais vulnerável.
Mudanças nos algoritmos dessas plataformas podem impactar diretamente o desempenho de uma empresa de forma abrupta, sem aviso prévio. Uma alteração na forma de ranqueamento ou recomendação pode reduzir drasticamente o alcance de produtos e campanhas.
Esse risco reforça a necessidade de diversificação de canais e estratégias que reduzam a dependência de um único ecossistema digital.
Inteligência artificial como estratégia, não apenas tecnologia
Diante desse cenário, Airan Jr. defende que a inteligência artificial deve deixar de ser um tema restrito à área técnica e passar a fazer parte das decisões estratégicas das empresas.
“O tema deve estar na mesa da liderança”, afirma.
Isso implica uma mudança cultural dentro das organizações, onde executivos precisam compreender o impacto dos algoritmos nos resultados e incorporar essa visão no planejamento do negócio.
Revisão constante de algoritmos e dados
Uma das recomendações do especialista é a revisão frequente dos algoritmos utilizados pelas empresas, especialmente em áreas como precificação e recomendação de produtos.
Garantir que essas decisões automatizadas estejam alinhadas com os objetivos do negócio é essencial para evitar distorções e prejuízos.
Além disso, é fundamental estabelecer critérios claros para o uso de dados, considerando não apenas eficiência, mas também questões éticas e o impacto sobre o consumidor.
Cultura orientada a dados
Outro ponto destacado é a importância de desenvolver uma cultura orientada a dados dentro das organizações. Isso não significa que todos os profissionais precisem dominar programação, mas sim que saibam interpretar informações e questionar resultados.
Empresas que conseguem transformar dados em insights estratégicos têm maior capacidade de adaptação e tomada de decisão em um ambiente cada vez mais dinâmico.
Essa cultura também contribui para reduzir a dependência de decisões automatizadas não compreendidas, trazendo mais controle para os gestores.
O papel humano na era dos algoritmos
Apesar do avanço da tecnologia, Airan Jr. ressalta que a decisão final continua sendo humana. A forma como cada empresa escolhe utilizar os algoritmos é o que determina seu posicionamento no mercado.
“A diferença está na forma como cada empresa se posiciona. É possível usar esses sistemas de maneira estratégica ou apenas reagir ao que eles determinam”, explica.
Essa visão reforça que, embora os algoritmos sejam ferramentas poderosas, a liderança e a estratégia continuam sendo fatores decisivos para o sucesso.
Evolução do e-commerce e novos desafios
O e-commerce brasileiro vive um momento de transformação impulsionado pela tecnologia. A incorporação de inteligência artificial e algoritmos sofisticados tende a se intensificar nos próximos anos, trazendo novas oportunidades, mas também desafios.
Empresas que se anteciparem a essas mudanças terão mais chances de se destacar, enquanto aquelas que resistirem ou demorarem a se adaptar podem enfrentar dificuldades crescentes.
A competitividade no ambiente digital passa a depender não apenas da qualidade dos produtos ou serviços, mas da capacidade de navegar em um ecossistema altamente tecnológico.
O papel da ABIACOM no setor
A Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM) atua como uma das principais entidades do setor, reunindo representantes de lojas virtuais e prestadores de serviços nas áreas de tecnologia, mídia e meios de pagamento.
Fundada em 2012 como Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABCOMM), a entidade tem como objetivo fomentar o desenvolvimento do e-commerce no Brasil, além de contribuir para a criação de políticas públicas e discussões relevantes para o mercado.
Atualmente, a ABIACOM também se posiciona como um espaço de debate sobre o uso de inteligência artificial no comércio digital, promovendo reflexões sobre inovação, ética e competitividade.
A entidade, presidida por Fernando Mansano, é uma organização sem fins lucrativos que atua junto a instituições governamentais e ao mercado para impulsionar a evolução do setor.
Empresas precisam escolher entre reagir ou liderar
A análise apresentada por Airan Jr. aponta para um ponto central: a economia orientada por algoritmos já está em funcionamento e não é mais uma tendência futura.
Nesse contexto, empresas têm duas opções claras: adaptar-se de forma estratégica ou continuar reagindo às mudanças impostas pelas plataformas.
A diferença entre essas abordagens pode definir não apenas o crescimento, mas a sobrevivência no mercado digital.
Organizações que investem em conhecimento, cultura de dados e integração da inteligência artificial à estratégia tendem a ter maior controle sobre seus resultados.
Por outro lado, aquelas que ignoram esses fatores podem se tornar reféns de sistemas que não compreendem completamente.
Um cenário de transformação contínua
O avanço dos algoritmos no e-commerce não deve desacelerar. Pelo contrário, a tendência é que esses sistemas se tornem cada vez mais sofisticados, ampliando sua influência sobre o comportamento do consumidor e as decisões de compra.
Isso exige das empresas uma postura proativa, com capacidade de adaptação rápida e visão estratégica.
Mais do que acompanhar tendências, será necessário antecipar movimentos e entender profundamente o funcionamento das tecnologias que moldam o mercado.
Conclusão
A economia dos algoritmos representa uma mudança estrutural no e-commerce brasileiro. O que antes era determinado principalmente por estratégias comerciais agora depende, em grande parte, da interpretação de dados por sistemas automatizados.
Nesse novo cenário, compreender e utilizar esses algoritmos de forma estratégica deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade.
Como destaca Airan Jr., a tecnologia continuará avançando, mas a decisão sobre como utilizá-la permanece nas mãos das empresas. É essa escolha que definirá quem apenas acompanha o mercado e quem realmente lidera.




