Mesmo após anos da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados, a adequação plena à norma ainda está longe da realidade de grande parte das empresas brasileiras. Um dos principais entraves está na análise de risco no tratamento de dados pessoais — etapa essencial da legislação que segue negligenciada e já impacta auditorias, contratos e processos de investimento.
Levantamentos de mercado indicam que apenas cerca de 36% das empresas se consideram totalmente adequadas à LGPD. A maior parte desse grupo é composta por grandes corporações, que passaram a exigir níveis mais elevados de conformidade de parceiros e fornecedores, ampliando a pressão sobre médias e pequenas empresas.
Falta de estrutura compromete governança de dados
O principal problema não está apenas na adequação jurídica, mas na ausência de processos estruturados para identificar, classificar e documentar riscos relacionados ao uso de dados pessoais.
Sem essa base, empresas enfrentam dificuldades para comprovar governança de dados — um fator cada vez mais relevante em negociações comerciais e avaliações de compliance.
“A análise de risco é o que transforma a LGPD em prática real dentro da empresa. Sem essa etapa, a governança fica frágil e difícil de demonstrar”, afirmam os empresários Gustavo Henrique Brandão e Kleber Ferreira.
Surgimento de soluções tecnológicas para o problema
Diante desse cenário, os dois empreendedores fundaram, em Itajaí (SC), a PROTEGE Análise de Risco em Proteção de Dados LTDA, responsável pela plataforma LGPD Protege.
A solução foi criada para atender uma lacuna identificada no mercado: muitas empresas acreditam estar adequadas à LGPD apenas com a entrega de documentos jurídicos, mas não conseguem demonstrar, na prática, como gerenciam riscos no tratamento de dados.
Segundo os fundadores, a exigência da Autoridade Nacional de Proteção de Dados vai além do compliance documental.
“O foco do órgão regulador não está no compliance documental, mas na capacidade de demonstrar, na prática, como a empresa identifica e mitiga riscos no tratamento de dados”, destacam.
Plataforma automatiza análise e documentação
Na prática, a plataforma conduz o usuário por um fluxo estruturado que permite mapear atividades que envolvem dados pessoais, avaliar riscos com critérios objetivos e gerar relatórios técnicos automaticamente.
Esses documentos são fundamentais em auditorias, contratos e processos de due diligence, especialmente em operações de investimento ou parcerias estratégicas.
O sistema também pode ser utilizado tanto por empresas quanto por escritórios especializados, ampliando a governança sem aumentar a complexidade operacional.
LGPD deixa de ser tema jurídico e vira estratégia
O avanço da legislação e o aumento da fiscalização têm impulsionado uma mudança no papel da LGPD dentro das organizações. O tema deixa de ser restrito ao jurídico e passa a integrar a estratégia de negócios.
Esse movimento é especialmente visível em processos de investimento, nos quais a ausência de documentação estruturada pode levantar dúvidas sobre a maturidade e a confiabilidade da empresa.
A tendência é que essa exigência se intensifique. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados já sinaliza maior rigor na fiscalização e na aplicação de sanções, incluindo multas de alto valor.
Pequenas e médias empresas enfrentam mais dificuldades
Apesar do avanço no debate sobre proteção de dados, o cenário ainda é desigual. Pequenas e médias empresas — que representam a maior parte do mercado brasileiro — enfrentam barreiras como falta de equipes especializadas e limitação de recursos.
Nesse contexto, soluções tecnológicas ganham relevância ao tornar a análise de risco um processo mais acessível, contínuo e estruturado.
Segurança e privacidade como diferencial competitivo
A plataforma LGPD Protege foi desenvolvida com base no conceito de Privacy by Design, priorizando a segurança desde a concepção. O sistema não armazena dados pessoais de titulares, operando apenas com informações descritivas, o que reduz riscos e exposição.
A inspiração para o modelo veio da Europa, cuja regulamentação serviu de base para a legislação brasileira.
“Ao entender que a ANPD segue diretrizes semelhantes às europeias, buscamos no mercado internacional uma solução que atendesse essa demanda no Brasil, com o diferencial de ser totalmente online e mais ágil”, explicam os fundadores.
Novo cenário exige maturidade em dados
O mercado brasileiro caminha para um novo estágio, no qual a governança de dados será cada vez mais exigida não apenas por reguladores, mas também por clientes, parceiros e investidores.
Empresas que conseguirem demonstrar clareza na gestão de dados tendem a ganhar vantagem competitiva em um ambiente cada vez mais orientado por confiança e transparência.
“A proteção de dados tende a se consolidar como indicador de organização e confiabilidade. Empresas que demonstram isso com clareza saem na frente”, concluem.




