Gestão de identidades ganha protagonismo na proteção de aplicativos e serviços digitais

Especialistas apontam que tecnologia de autenticação e modelo Zero Trust reforçam a segurança de milhões de acessos realizados diariamente em bancos, serviços públicos e plataformas digitais

A transformação digital ampliou significativamente o uso de aplicativos e serviços online no Brasil, tornando a segurança dos acessos um dos principais desafios para empresas e órgãos públicos. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71,2% dos brasileiros com acesso à internet utilizam plataformas digitais para movimentar dinheiro e realizar pagamentos. Por trás da praticidade de abrir um aplicativo, utilizar biometria ou digitar uma senha existe um conjunto de tecnologias responsável por validar identidades, controlar permissões e impedir acessos indevidos.

Esse conjunto de soluções é conhecido como gestão de identidades, uma estratégia que vem se consolidando como um dos pilares da cibersegurança em um cenário marcado pelo crescimento das transações digitais, do trabalho remoto e da necessidade de proteger dados pessoais e corporativos.

Segundo Julio Kusman, diretor de cibersegurança da L8 Security, a gestão de identidade vai muito além do simples login realizado pelos usuários.

“Tecnicamente chamamos isso de gestão de identidade. Na prática, estamos falando de uma tecnologia que controla e valida as permissões de usuários e sistemas para utilizar aplicativos, plataformas e informações. Além dos usuários, há também sistemas que se comunicam entre si e essas interações precisam ser autenticadas e autorizadas”, explica.

A adoção dessas tecnologias ocorre em um momento em que organizações públicas e privadas buscam elevar seus níveis de proteção diante do aumento das ameaças cibernéticas e da crescente digitalização de serviços considerados essenciais.

O que é gestão de identidades

Sempre que uma pessoa acessa um aplicativo bancário, consulta informações em um portal governamental ou utiliza um sistema corporativo, diversos processos de autenticação são executados em poucos segundos.

Embora a experiência do usuário seja simples, os bastidores envolvem mecanismos responsáveis por confirmar quem está solicitando o acesso, quais informações podem ser visualizadas e quais operações estão autorizadas.

Essa estrutura recebe o nome de gestão de identidades e acessos (Identity and Access Management – IAM) e permite administrar credenciais, autenticar usuários e controlar permissões de forma centralizada.

Além das pessoas, a tecnologia também gerencia o relacionamento entre aplicações, servidores e equipamentos que trocam informações continuamente.

Com o avanço da computação em nuvem, da inteligência artificial e da automação de processos, esse controle tornou-se ainda mais relevante.

Hoje, uma única operação financeira pode envolver dezenas de sistemas diferentes, todos precisando comprovar continuamente que estão autorizados a trocar informações.

Zero Trust muda a forma de proteger os acessos

Entre as estratégias mais adotadas atualmente está o conceito conhecido como Zero Trust.

Ao contrário dos modelos tradicionais de segurança, que consideravam confiáveis os usuários já conectados à rede corporativa, essa abordagem parte do princípio de que nenhum acesso deve ser aceito automaticamente.

Independentemente da origem da solicitação, todos os usuários, dispositivos e aplicações precisam comprovar sua identidade antes de acessar qualquer recurso.

“O princípio do Zero Trust é simples: nunca confiar automaticamente e sempre verificar. É uma abordagem amplamente utilizada por plataformas com milhões de usuários, como serviços governamentais e instituições financeiras, para reduzir riscos de acessos indevidos”, afirma Kusman.

Na prática, o sistema realiza verificações constantes durante toda a sessão de uso.

Além da senha ou biometria, podem ser analisados fatores como localização geográfica, dispositivo utilizado, horário do acesso, comportamento do usuário e permissões previamente concedidas.

Caso qualquer comportamento seja considerado incomum, novas etapas de autenticação podem ser exigidas ou o acesso pode ser bloqueado.

Proteção vai além das senhas

O crescimento das fraudes digitais mostrou que apenas senhas já não são suficientes para proteger informações sensíveis.

Vazamentos de credenciais, ataques de phishing e o uso de softwares maliciosos aumentaram a necessidade de mecanismos adicionais de segurança.

Por isso, a gestão moderna de identidades incorpora diferentes camadas de autenticação.

Entre elas estão biometria facial, reconhecimento por impressão digital, autenticação em dois fatores, certificados digitais, tokens temporários e análise comportamental baseada em inteligência artificial.

Esses recursos tornam muito mais difícil que criminosos consigam utilizar credenciais roubadas para acessar sistemas corporativos ou contas pessoais.

Mesmo quando uma senha é comprometida, outros fatores de autenticação podem impedir o acesso indevido.

Empresas ampliam investimentos em cibersegurança

A digitalização acelerada dos últimos anos levou empresas e instituições públicas a ampliarem investimentos em soluções de proteção de identidade.

Segundo Kusman, setores que administram grandes volumes de informações sensíveis estão entre os que mais avançam nessa estratégia.

“Organizações que atendem um grande volume de usuários, especialmente nos setores de governo, saneamento, energia e serviços financeiros, têm buscado soluções mais robustas de gestão de identidades para reduzir riscos de fraudes e vazamentos de dados. Quanto mais digitalizada é uma operação, maior é a necessidade de proteger credenciais, informações pessoais e dados biométricos”, explica.

Esses segmentos costumam lidar diariamente com milhões de autenticações realizadas por cidadãos, consumidores, fornecedores e colaboradores.

Qualquer vulnerabilidade pode resultar em interrupção de serviços, prejuízos financeiros e comprometimento de informações pessoais.

Por isso, a gestão de identidades passou a integrar as estratégias de continuidade operacional e conformidade regulatória.

Segurança acompanha transformação digital

O avanço da transformação digital fez crescer não apenas o número de usuários conectados, mas também a quantidade de dispositivos e sistemas compartilhando dados em tempo real.

Além dos smartphones, relógios inteligentes, sensores industriais, equipamentos hospitalares e dispositivos da chamada Internet das Coisas (IoT) também precisam ser autenticados antes de trocar informações.

Esse novo cenário amplia significativamente a superfície de ataque das organizações.

A proteção deixa de envolver apenas computadores e servidores e passa a incluir milhares de equipamentos conectados simultaneamente.

Nesse contexto, a gestão de identidades torna-se um elemento essencial para controlar quem pode acessar cada ambiente e quais permissões estão disponíveis.

A estratégia também contribui para atender exigências legais relacionadas à proteção de dados pessoais, como as previstas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Experiência do usuário também melhora

Embora a principal função dessas tecnologias seja elevar a segurança, especialistas destacam que elas também contribuem para melhorar a experiência dos usuários.

A autenticação inteligente permite reduzir etapas desnecessárias quando o sistema identifica comportamentos considerados seguros.

Em contrapartida, situações incomuns recebem camadas adicionais de verificação.

Esse equilíbrio busca oferecer conveniência sem abrir mão da proteção.

Na avaliação de Kusman, essa combinação será cada vez mais importante à medida que novas aplicações digitais forem incorporadas ao cotidiano das pessoas.

“A gestão de identidades tende a se tornar cada vez mais estratégica para empresas e órgãos públicos. Além de proteger dados sensíveis, essas tecnologias ajudam a garantir uma experiência mais segura para usuários em operações realizadas diariamente pela internet”, conclui.

Com o crescimento das transações digitais e da conectividade, especialistas avaliam que a autenticação contínua, a gestão inteligente de identidades e modelos como o Zero Trust devem se consolidar como componentes indispensáveis da infraestrutura digital, reduzindo riscos e fortalecendo a confiança dos usuários em serviços cada vez mais presentes no dia a dia.

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