O avanço da obesidade no Brasil acende um alerta para a saúde pública: o excesso de gordura corporal já está associado a uma parcela relevante dos casos de câncer no país e impacta negativamente o tratamento oncológico. Dados recentes indicam que 61,4% dos adultos das capitais brasileiras estão acima do peso, enquanto cerca de 26% — o equivalente a 41 milhões de pessoas — vivem com obesidade. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, 13 em cada 100 casos de câncer no Brasil são atribuíveis ao excesso de peso corporal.
O cenário preocupa especialistas porque, assim como ocorreu com o tabagismo no passado, trata-se de um fator de risco modificável, com impacto crescente e silencioso na incidência da doença.
Da queda do cigarro ao avanço da balança
O Brasil é frequentemente citado como exemplo global no combate ao tabagismo. Políticas públicas como restrição à propaganda, aumento de impostos, advertências sanitárias e oferta de tratamento pelo SUS levaram à redução expressiva do número de fumantes e, mais recentemente, à queda da mortalidade por câncer de pulmão entre os homens.
Agora, especialistas apontam que o excesso de peso ocupa espaço como novo desafio sanitário. Dados do sistema Vigitel mostram que 61,4% da população adulta das capitais está acima do peso. Projeções indicam que, nas próximas duas décadas, quase metade dos adultos brasileiros poderá viver com obesidade.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, uma parcela significativa dos casos de câncer no país já está associada ao sobrepeso e à obesidade.
Os 13 tipos de câncer associados
A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, vinculada à OMS, reconhece a associação entre excesso de gordura corporal e pelo menos 13 tipos de tumores:
Mama (especialmente na pós-menopausa)
Cólon e reto
Endométrio
Ovário
Fígado
Pâncreas
Rim
Esôfago (adenocarcinoma)
Vesícula biliar
Estômago (cárdia)
Tireoide
Mieloma múltiplo
Meningioma
Embora nem todos os casos ocorram em pessoas com obesidade, o acúmulo excessivo de gordura aumenta o risco populacional.
“O tecido adiposo não é inerte. Ele produz substâncias inflamatórias e altera o equilíbrio hormonal do organismo”, explica o oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas. “Esse ambiente metabólico favorece a proliferação celular e pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de tumores. Além disso, os resultados dos tratamentos dos tumores em pessoas com obesidade tendem a ser piores.”
O que acontece no organismo
A obesidade é definida como doença crônica caracterizada por índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m². Mas o problema vai além do peso na balança.
No plano biológico, envolve aumento de leptina, insulina, triglicérides e fatores de crescimento, elevação de citocinas pró-inflamatórias, maior atividade da aromatase com impacto hormonal, redução de adiponectina e supressão da imunidade antitumoral, especialmente das células T.
“Não se trata apenas de peso na balança, mas de um desarranjo metabólico sistêmico”, afirma Donadio. “A inflamação crônica com disfunção imunológica e as alterações hormonais criam um terreno biologicamente mais favorável ao câncer.”
Esse estado inflamatório persistente altera o microambiente celular, favorecendo mutações, proliferação desordenada e progressão tumoral.
Diagnóstico tardio e tratamento mais complexo
O impacto da obesidade não se limita ao risco de desenvolver câncer. Pacientes com obesidade tendem a receber diagnóstico em estágios mais avançados. Entre os fatores estão barreiras estruturais, como equipamentos inadequados para exames, além de estigmas que dificultam o acesso e a continuidade do cuidado.
O tratamento também pode ser mais desafiador. O excesso de gordura corporal está relacionado a maior toxicidade e efeitos adversos da quimioterapia, maior resistência à radioterapia, complicações cutâneas, pior cicatrização e mais infecções no pós-operatório. Há ainda relatos de redução da eficácia da hormonioterapia e maior incidência de efeitos adversos em imunoterapia.
Outro ponto crítico é a composição corporal. A perda de massa muscular, chamada sarcopenia, pode comprometer a resposta ao tratamento e a qualidade de vida. Quando há combinação de obesidade e sarcopenia, o impacto tende a ser ainda mais significativo.
“Precisamos olhar além do IMC e avaliar a composição corporal e funcionalidade”, destaca Donadio. “A abordagem deve ser individualizada.”
Mudança alimentar e políticas públicas
Especialistas associam a epidemia de obesidade à mudança no padrão alimentar, com maior consumo de ultraprocessados, bebidas açucaradas e refeições industrializadas, em detrimento de alimentos frescos.
Experiências internacionais mostram caminhos possíveis. Países como México e Chile adotaram taxação de bebidas açucaradas e rotulagem frontal de advertência. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira e compromissos junto à Organização Pan-Americana da Saúde são considerados avanços, mas ainda insuficientes.
“Se aprendemos com o enfrentamento ao tabagismo, sabemos que políticas públicas consistentes fazem diferença”, afirma Donadio. “Tributação de produtos nocivos, regulação da publicidade infantil e promoção de ambientes saudáveis são medidas estruturais.”
O manejo da obesidade no paciente oncológico
O tratamento da obesidade é multidisciplinar e pode envolver reeducação alimentar, atividade física regular, acompanhamento psicológico e medicamentos antiobesidade, desde que não haja interação com terapias oncológicas.
A comparação entre obesidade e tabagismo tem sido feita por especialistas, mas com cautela. Diferentemente do cigarro, cuja relação causal com o câncer é direta e amplamente comprovada, a associação entre obesidade e câncer é multifatorial e biologicamente complexa.
“Não é uma equivalência simples”, pondera Donadio. “Mas, do ponto de vista de saúde pública, a obesidade já se consolida como um dos principais fatores modificáveis de risco para câncer.”
Para ele, a mensagem é clara: “Controlar o peso não é uma questão estética. É uma estratégia concreta de prevenção oncológica e de melhora de desfechos para quem já enfrenta a doença.”
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co é um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil. Presente em mais de 140 unidades distribuídas em 47 cidades, reúne mais de 1.700 médicos especializados e realizou cerca de 670 mil tratamentos nos últimos 12 meses.
A companhia integra clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, com foco em medicina de precisão e genômica. É parceira exclusiva no Brasil do Dana-Farber Cancer Institute, afiliado à Harvard Medical School, e mantém iniciativas globais como a Boston Lighthouse Innovation, nos Estados Unidos, além de participação na MedSir, na Espanha. Também integra o índice IDIVERSA da B3 e expandiu sua atuação para a Arábia Saudita por meio de joint venture com o Grupo Al Faisaliah.




