57% das empresas apontam falhas da liderança na consolidação da cultura organizacional

Pesquisa revela que gestores ainda são o principal obstáculo para transformar valores corporativos em práticas do dia a dia, enquanto empresas enfrentam pressão por produtividade e mudanças impulsionadas pela inteligência artificial

A cultura organizacional se consolidou como uma das principais pautas estratégicas das empresas, mas transformar valores corporativos em comportamentos concretos continua sendo um desafio para a maioria das organizações. Embora investimentos em treinamentos, diagnósticos e programas de desenvolvimento tenham aumentado nos últimos anos, especialistas alertam que a falta de protagonismo das lideranças ainda impede que essas iniciativas produzam resultados consistentes.

Levantamento realizado pela consultoria Crescimentum com 173 líderes de Recursos Humanos de 65 empresas brasileiras mostra que 57% dos entrevistados acreditam que os gestores falham ao reforçar a cultura organizacional dentro de suas equipes. O dado reforça um cenário já observado em pesquisas internacionais: segundo o estudo McKinsey State of Organizations 2026, cerca de 75% das organizações no mundo não conseguem construir culturas de alta performance.

No Brasil, a realidade segue a mesma tendência. Dados apresentados pela consultoria indicam que aproximadamente 78% das empresas estão passando por algum tipo de transformação cultural, porém apenas uma em cada quatro iniciativas consegue gerar valor efetivo para o negócio.

Para Mariana Damiati, sócia-diretora da Crescimentum, o principal desafio está na dificuldade de transformar boas intenções em mudanças práticas dentro das organizações.

“O problema central é a lacuna entre intenção e resultado. As empresas sabem que cultura importa. Investem em diagnósticos, treinamentos e campanhas de valores. Mas a cultura continua não mudando porque esses esforços não entram nos sistemas de gestão, não alteram comportamentos cotidianos da liderança e não produzem evidências visíveis de mudança”, afirma.

Cultura deixa de ser responsabilidade exclusiva do RH

Durante muitos anos, a cultura organizacional foi tratada como um tema restrito às áreas de Recursos Humanos. Entretanto, diante das rápidas transformações no ambiente corporativo, especialistas defendem que a responsabilidade pela construção da cultura precisa ser compartilhada por toda a liderança.

Segundo a pesquisa da Crescimentum, justamente nesse ponto está uma das maiores fragilidades das empresas brasileiras. Embora os gestores participem formalmente de programas de desenvolvimento, muitos ainda não conseguem transformar os valores definidos pela organização em práticas permanentes dentro de suas equipes.

Na avaliação de Mariana Damiati, essa desconexão reduz a credibilidade das iniciativas e dificulta qualquer processo de transformação.

“A maioria das empresas não falha em transformação cultural por falta de vontade, nem de investimento. Falha por falta de coragem para sair do diagnóstico e ir para a prática. Cultura não muda com campanha. Muda quando o líder aprende a ser arquiteto do contexto em que as pessoas trabalham”, destaca.

Inteligência artificial acelera necessidade de adaptação

A urgência em fortalecer a cultura organizacional também está relacionada às profundas mudanças que vêm ocorrendo no ambiente corporativo. A popularização da inteligência artificial, a convivência entre diferentes gerações nas empresas e as constantes reestruturações organizacionais aumentaram a necessidade de adaptação das equipes.

Segundo a Crescimentum, projetos de transformação cultural que levavam anos para apresentar resultados já não atendem às demandas atuais das empresas.

Além disso, o levantamento da McKinsey aponta que 61% dos executivos afirmam sofrer forte pressão por ganhos de produtividade, enquanto pesquisas do Gartner indicam que os principais pilares das culturas de alta performance vêm apresentando deterioração desde 2022.

Esse cenário faz com que a cultura deixe de ser apenas um tema relacionado ao clima organizacional para assumir papel estratégico na competitividade das empresas.

Cinco fatores explicam o fracasso das transformações

Ao analisar projetos desenvolvidos ao longo de 2024 e 2025, a Crescimentum identificou cinco fatores recorrentes que comprometem os resultados das iniciativas de transformação cultural.

Entre eles estão o tratamento da cultura apenas como campanhas de comunicação interna, treinamentos com pouca aplicação prática, ausência de integração dos valores aos sistemas de gestão, revisão das estratégias empresariais sem mudanças culturais e participação limitada das lideranças apenas durante as etapas formais dos programas.

Segundo a consultoria, quando esses fatores permanecem presentes, os investimentos dificilmente conseguem modificar a forma como as pessoas trabalham, tomam decisões e conduzem suas equipes.

Método aposta em mudanças práticas lideradas pelos gestores

Como alternativa, a Crescimentum desenvolveu o método MOVER, abordagem que propõe tratar a cultura organizacional como parte da execução da estratégia empresarial e não como um projeto paralelo conduzido exclusivamente pelo RH.

A metodologia estrutura a transformação cultural em um processo contínuo, que parte da identificação dos desafios reais enfrentados pela organização e evolui para a criação de experimentos práticos desenvolvidos pelos próprios líderes.

De acordo com a empresa, a proposta busca substituir longos ciclos de planejamento por pequenas mudanças implementadas rapidamente no cotidiano das equipes, permitindo que os resultados apareçam ainda durante a execução do projeto.

O modelo também utiliza métricas desde o início da implementação e incentiva a realização dos chamados “hacks culturais”, experimentos de baixo custo voltados para modificar comportamentos específicos no ambiente de trabalho.

Exemplo prático mostra aplicação da metodologia

Um dos casos apresentados pela Crescimentum é o da Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus, que adotou a metodologia para envolver suas lideranças na construção de mudanças culturais.

Ao todo, 430 líderes participaram de um hackathon cultural distribuído em seis turmas. Durante a iniciativa, os participantes desenvolveram experimentos voltados para solucionar desafios internos da empresa. Segundo a consultoria, parte das ações começou a ser implementada logo após o encerramento do evento, sem necessidade de novos investimentos ou longos processos de aprovação.

“O que mais me marca nesse case é ver líderes saindo de um hackathon e implementando mudanças na segunda-feira seguinte. Quando o líder co-constrói a solução, ele não precisa ser convencido a implementar. Ele já é o autor”, afirma Mariana Damiati.

A experiência também foi destacada por Cibele Jesus, analista de Treinamento e Desenvolvimento Humano Organizacional (DHO) da Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus.

“O que mudou na prática foi a forma como o RH se posicionou: deixamos de entregar programas prontos e passamos a construir, junto com a liderança, as respostas para os nossos próprios desafios”, relata.

Cultura organizacional torna-se diferencial competitivo

Na avaliação da Crescimentum, a cultura organizacional deixou de ser apenas uma pauta voltada ao engajamento dos colaboradores para assumir papel estratégico na geração de resultados.

Em um ambiente marcado por mudanças constantes, transformação digital, inteligência artificial e pressão por produtividade, empresas que conseguem alinhar comportamento, liderança e estratégia tendem a responder mais rapidamente às demandas do mercado.

Dados da Bain & Company reforçam esse desafio ao apontar que 88% das transformações empresariais não atingem plenamente os objetivos inicialmente estabelecidos.

Para Mariana Damiati, o sucesso da transformação cultural depende menos de campanhas institucionais e mais da capacidade da liderança de incorporar novos comportamentos à rotina da organização.

Segundo ela, o desafio atual das empresas já não é compreender a importância da cultura organizacional, mas encontrar mecanismos que permitam transformar discursos em ações concretas capazes de gerar impacto sustentável para o negócio.

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