O crescimento do investimento estrangeiro nos Estados Unidos amplia o número de empresários interessados em comprar negócios já em operação, mas uma empresa lucrativa não representa, por si só, uma oportunidade adequada de investimento. Dados do Bureau of Economic Analysis (BEA) mostram que o estoque de investimento estrangeiro direto no país alcançou US$ 5,86 trilhões em 2025, enquanto os investimentos destinados à aquisição, criação ou expansão de empresas americanas chegaram a US$ 232,2 bilhões. Desse montante, US$ 218,4 bilhões foram empregados na compra de negócios já existentes.
O cenário mostra a dimensão do interesse internacional pelo mercado americano, mas também reforça a necessidade de uma análise que vá além do faturamento e do lucro apresentados por uma empresa à venda. Questões como estrutura societária, necessidade de capital, dependência do proprietário, capacidade de gestão, tributação, potencial de crescimento e perfil do comprador podem alterar significativamente o retorno esperado de uma aquisição.
Para Franco Scornavacca, conhecido como Kiko do KLB, empresário e fundador da MD1 Nexus, empresa que conecta investidores a oportunidades empresariais nos Estados Unidos, a principal diferença está em compreender que uma boa empresa e um bom investimento não são necessariamente a mesma coisa.
“Uma empresa pode ter faturamento, lucro, clientes e uma operação saudável e ainda assim não ser o investimento certo para determinada pessoa. Comprar uma empresa nos Estados Unidos exige entender também quem está comprando, por que está investindo e o que pretende construir a partir daquela aquisição”, afirma.
O objetivo precisa vir antes da empresa
Uma das primeiras decisões de quem pretende adquirir um negócio nos Estados Unidos deveria acontecer antes mesmo da busca por empresas disponíveis. Trata-se de definir qual é o objetivo do investimento.
Diversificação patrimonial, geração de receita em dólar, expansão de uma atividade já existente, participação direta na administração de uma empresa ou até mesmo a busca por maior mobilidade internacional representam objetivos diferentes.
Cada um deles exige uma estratégia própria.
Um investidor interessado em participar diariamente da operação pode procurar uma empresa diferente daquela escolhida por um empresário que pretende permanecer no Brasil e acompanhar o negócio à distância. Da mesma forma, alguém interessado em expandir uma empresa brasileira para o mercado americano pode ter critérios diferentes daqueles de quem procura exclusivamente geração de renda.
“O erro é começar perguntando qual empresa está à venda. A primeira pergunta deveria ser o que aquele empresário pretende alcançar. A oportunidade precisa estar alinhada ao objetivo do investidor, e não o contrário”, ressalta Kiko.
A definição também precisa considerar o perfil financeiro e operacional do comprador. Uma empresa aparentemente rentável pode exigir a presença constante do proprietário, conhecimento técnico específico ou uma capacidade de gestão que o novo controlador não possui.
Nesse caso, o histórico positivo do negócio não garante que os mesmos resultados serão mantidos após a mudança de controle.
Lucro não mostra toda a realidade da operação
Faturamento e lucro são indicadores importantes para avaliar uma empresa, mas representam apenas parte do diagnóstico necessário antes de uma aquisição.
Uma companhia pode apresentar resultados positivos e, ao mesmo tempo, possuir elevada concentração de clientes, contratos próximos do vencimento, dependência de poucos fornecedores ou uma estrutura operacional excessivamente vinculada ao atual proprietário.
Também é necessário compreender de onde vem o lucro.
Uma margem elevada pode ser resultado de uma circunstância temporária, de um contrato específico ou de uma condição de mercado que não necessariamente permanecerá depois da aquisição. Por isso, analisar o histórico e as perspectivas futuras é tão importante quanto observar os resultados recentes.
Outro ponto é a capacidade de transferência da operação.
Se o proprietário atual concentra os principais relacionamentos comerciais, decisões estratégicas e conhecimento operacional, sua saída pode representar um risco significativo para a continuidade do negócio.
Essa avaliação ajuda a diferenciar uma empresa que gera resultados por possuir uma estrutura sólida de outra que depende excessivamente de uma pessoa específica.
Due diligence pode mudar a decisão
Depois que o investidor identifica uma empresa compatível com seus objetivos, começa uma das etapas mais importantes da aquisição: a investigação detalhada do negócio.
A due diligence permite analisar aspectos financeiros, jurídicos, contábeis e operacionais antes da conclusão da compra. O processo pode revelar informações que não aparecem em uma apresentação comercial ou nos indicadores inicialmente divulgados pelo vendedor.
Dívidas, obrigações contratuais, passivos, processos, questões tributárias, concentração de clientes, situação dos ativos e compromissos futuros estão entre os pontos que podem influenciar a decisão.
Também é importante avaliar contratos relevantes para a operação e entender se eles serão mantidos depois da mudança de controle.
“Não adianta descobrir que a empresa é boa e somente depois da compra começar a discutir como o investimento deveria ter sido estruturado. Algumas decisões precisam acontecer antes de o capital ser movimentado”, aponta o empresário.
A avaliação prévia pode inclusive levar o comprador a renegociar condições, ajustar o preço ou desistir da operação quando os riscos identificados não forem compatíveis com seus objetivos.
Nesse sentido, a due diligence não deve ser encarada apenas como uma formalidade necessária para fechar o negócio, mas como uma ferramenta de tomada de decisão.
A estrutura da aquisição também importa
Outro fator que pode alterar o resultado de uma operação é a forma como a aquisição será estruturada.
Questões societárias, tributárias e contábeis precisam ser analisadas de acordo com a situação de cada comprador e da empresa adquirida. Quando o investidor também possui planos relacionados à residência nos Estados Unidos, o planejamento migratório pode entrar na equação.
Isso significa que diferentes especialistas podem participar da operação, cada um responsável por uma dimensão específica da decisão.
A avaliação jurídica verifica riscos e obrigações. A análise contábil e tributária examina os impactos financeiros e fiscais. Profissionais especializados em imigração podem avaliar questões relacionadas ao eventual processo migratório.
A integração dessas análises permite que o investidor compreenda o negócio de maneira mais ampla.
A MD1 Nexus, segundo as informações apresentadas pela empresa, atua como um hub de conexão entre investidores, oportunidades empresariais e profissionais especializados. A companhia não substitui os trabalhos jurídicos, contábeis, tributários ou migratórios, mas busca conectar o empresário aos especialistas necessários para cada etapa.
O preço da empresa não é o investimento total
Um dos erros apontados na avaliação de uma aquisição é considerar que o preço pago ao vendedor representa todo o capital necessário para o projeto.
Depois da compra, a empresa continua precisando de recursos para funcionar.
Capital de giro, folha de pagamento, despesas operacionais, estoque, tecnologia, manutenção, contratação de profissionais e eventuais investimentos de expansão podem representar valores relevantes.
Em alguns casos, o novo proprietário também identifica oportunidades de crescimento que exigem capital adicional. Uma empresa pode estar saudável em seu formato atual, mas precisar de novos recursos para abrir unidades, ampliar sua equipe ou investir em marketing e vendas.
“Quando alguém calcula apenas quanto custa comprar a empresa, pode subestimar o investimento necessário para fazê-la funcionar e crescer. O capital precisa ser pensado para a aquisição, mas também para o que vem depois dela”, destaca Kiko.
A movimentação de recursos entre Brasil e Estados Unidos acrescenta ainda questões financeiras, tributárias e declaratórias que precisam ser avaliadas individualmente.
Por isso, a capacidade financeira do investidor deve ser analisada considerando não apenas o valor da aquisição, mas também o período posterior à compra.
A operação muda depois da aquisição
Uma empresa pode ter sido construída em torno do perfil e das decisões do antigo proprietário. Quando ocorre uma aquisição, parte dessa dinâmica muda.
A transição entre os controladores, a permanência temporária do antigo dono, a manutenção de funcionários estratégicos e a comunicação com clientes e fornecedores podem influenciar os primeiros meses da nova gestão.
O comprador precisa definir quem ficará responsável pela operação e qual será o nível de envolvimento dos novos controladores.
Para investidores que não pretendem administrar diretamente a empresa, a existência de uma equipe de gestão preparada pode ser determinante.
Já para empresários que desejam assumir a operação, a avaliação precisa considerar se possuem conhecimento, experiência e disponibilidade para conduzir o negócio.
Essa diferença demonstra novamente por que não existe uma empresa universalmente boa para todos os compradores.
O mesmo negócio pode ser uma excelente oportunidade para um investidor e uma escolha inadequada para outro.
Crescimento futuro precisa entrar na análise
Outro elemento importante é o potencial de expansão.
O histórico da empresa mostra o que aconteceu, mas a aquisição representa uma aposta no futuro. Por isso, o investidor precisa compreender quais oportunidades podem ser exploradas depois da compra.
Dependendo do setor, isso pode envolver abertura de novas unidades, expansão geográfica, fortalecimento da área comercial, lançamento de novos produtos ou serviços, licenciamento, digitalização da operação ou aquisição de concorrentes.
Também pode existir uma estratégia de saída, com a possibilidade de venda futura da empresa para outro investidor ou grupo empresarial.
A capacidade de visualizar esses caminhos antes da compra ajuda a entender o verdadeiro potencial do negócio.
Uma companhia com lucro consistente, mas pouco espaço para expansão, pode ser adequada para determinado perfil de investidor. Já outra empresa com margem menor, mas forte possibilidade de crescimento, pode fazer mais sentido para quem busca valorização patrimonial no longo prazo.
A compra é apenas o primeiro passo
O processo de aquisição não termina quando o contrato é assinado e o controle da empresa é transferido.
Na prática, a compra marca o início de uma nova etapa.
O novo proprietário precisa acompanhar os resultados, entender a equipe, preservar os relacionamentos estratégicos e implementar mudanças sem comprometer aquilo que já funciona.
Dependendo do projeto, também pode ser necessário desenvolver novos canais comerciais, aprimorar processos e criar uma estrutura de gestão capaz de sustentar o crescimento.
É nesse momento que a diferença entre comprar uma empresa e construir um investimento aparece com mais clareza.
“O investimento precisa considerar o que acontece depois, como aquele negócio pode crescer, quem vai conduzir a operação e qual é a estratégia para o capital no longo prazo. É isso que permite avaliar se uma empresa lucrativa realmente vale a compra”, conclui Kiko.
A lógica também ajuda a explicar o crescimento da procura por empresas já estabelecidas nos Estados Unidos. Para alguns investidores, adquirir uma operação em funcionamento pode representar uma alternativa à construção de um negócio do zero, mas a existência de receita e clientes não elimina os riscos da transação.
Mercado americano atrai capital estrangeiro
Os dados do Bureau of Economic Analysis ajudam a contextualizar o interesse dos investidores internacionais.
Em 2025, o estoque de investimento estrangeiro direto nos Estados Unidos chegou a US$ 5,86 trilhões, aumento de US$ 266 bilhões em relação ao ano anterior.
No mesmo período, investidores estrangeiros destinaram US$ 232,2 bilhões à aquisição, criação ou expansão de empresas americanas. O valor representa crescimento de 49,5% em relação a 2024.
A maior parcela foi direcionada à compra de negócios já existentes, com US$ 218,4 bilhões.
Os números mostram que a aquisição de empresas americanas faz parte de um movimento relevante de internacionalização de capital. Para empresários brasileiros, entretanto, a decisão exige uma análise que considere tanto as características do mercado americano quanto os objetivos individuais do investidor.
A oportunidade pode estar em uma empresa lucrativa, mas a qualidade do investimento dependerá de uma combinação de fatores.
Objetivo, estrutura, capital disponível, capacidade de gestão, riscos, potencial de crescimento e estratégia de longo prazo precisam fazer parte da mesma equação.
No fim, a pergunta mais importante não é apenas quanto uma empresa fatura ou quanto ela lucra. É saber se aquele negócio, naquele momento e naquela estrutura, faz sentido para quem pretende comprá-lo.
Sobre Kiko
Franco Scornavacca, conhecido nacionalmente como Kiko do KLB, é empresário e fundador da MD1 Nexus. Há mais de três décadas, atua na construção de conexões empresariais entre Brasil e Estados Unidos, com trajetória ligada à expansão internacional, networking estratégico e desenvolvimento de oportunidades de negócios.
Ao longo da carreira, construiu uma rede de relacionamento entre empresários, investidores e lideranças empresariais, aproximando diferentes mercados e buscando oportunidades de crescimento internacional.
Sua atuação reúne experiência empresarial, relacionamento estratégico e conhecimento sobre internacionalização de negócios, expansão comercial e desenvolvimento patrimonial.
Para mais informações, acompanhe o perfil de Kiko no Instagram.
Sobre a MD1 Nexus
A MD1 Nexus atua com aceleração de negócios, conexões empresariais e expansão internacional, aproximando empresários, investidores e lideranças de oportunidades nos Estados Unidos e em outros mercados.
A empresa desenvolve projetos e conexões estratégicas para empresários interessados em internacionalização, expansão comercial, fortalecimento de marca e desenvolvimento de novas oportunidades de negócios.
Seu modelo combina relacionamento empresarial, inteligência de mercado e acesso a ecossistemas de negócios.




