Debate sobre a escala 6×1 exige preparação antecipada das empresas

Empresários e especialistas defendem que empresas iniciem desde já análises operacionais, financeiras e trabalhistas diante das discussões sobre possíveis mudanças na jornada 6×1 no Brasil. O tema, que avança no Congresso Nacional, já mobiliza setores do comércio, indústria e serviços preocupados com impactos sobre produtividade, folha de pagamento, organização das equipes e competitividade.

A avaliação é que a adaptação não deve começar apenas quando houver definição oficial sobre a legislação. Para especialistas em gestão empresarial e direito trabalhista, o momento atual exige planejamento estratégico, revisão de processos internos e análise de alternativas capazes de garantir sustentabilidade operacional no médio e longo prazo.

O debate ganhou destaque durante palestra promovida pela JM Consultoria, em Americana (SP), reunindo empresários da região para discutir possíveis caminhos de adaptação relacionados à gestão de pessoas, produtividade e organização operacional. O encontro contou com a participação do advogado trabalhista Pedro Bottesini, da TBSR Advogados.

Empresas precisam iniciar diagnóstico interno

Segundo Jarbas Martins, especialista em gestão de negócios e fundador da JM Consultoria, independentemente do formato que venha a ser aprovado futuramente, o mercado já percebe uma pressão crescente por mudanças na relação entre jornada de trabalho, qualidade de vida e produtividade.

“Mesmo sem uma definição sobre o formato da mudança, a tendência é que as empresas precisem de qualquer forma discutir cada vez mais temas relacionados à jornada de trabalho e à organização das equipes. Por isso, esse é um momento importante para começar a analisar cenários, entender possíveis impactos financeiros e avaliar adequações operacionais com antecedência”, orienta.

Na avaliação do especialista, o primeiro passo para empresas que operam atualmente na escala 6×1 é realizar um diagnóstico detalhado da operação. O objetivo é entender quais setores dependem diretamente desse modelo e quais áreas podem sofrer impactos indiretos caso ocorram mudanças na legislação trabalhista.

“Um caminho importante é mapear quais cargos hoje operam em escala 6×1 e entender quais outras jornadas podem ser impactadas indiretamente. A partir disso, a empresa consegue avaliar possíveis reestruturações, alternativas de escala e os reflexos disso na folha de pagamento e nos custos da operação e, para além disso, buscar transformar essa realidade em uma oportunidade de evolução”, afirma Jarbas Martins.

O especialista explica que a discussão vai além da simples redução de um dia trabalhado por semana. Segundo ele, o debate envolve produtividade, reorganização operacional, experiência dos colaboradores, retenção de talentos e capacidade competitiva das empresas em um cenário de mudanças aceleradas nas relações de trabalho.

Integração entre áreas será decisiva

Outro ponto destacado pelos especialistas é a necessidade de envolver diferentes departamentos da empresa no processo de planejamento. Para Jarbas Martins, decisões isoladas podem aumentar riscos operacionais e dificultar a adaptação futura.

“Além do financeiro, pode fazer sentido analisar turnos de operação, horários de pico, produtividade por hora e até modelos alternativos previstos na legislação trabalhista. Quanto mais integrada for essa análise entre áreas como comercial, processos e gestão de pessoas, maior tende a ser a capacidade de adaptação”, explica.

A preocupação do setor empresarial ocorre em um momento em que empresas brasileiras já enfrentam desafios relacionados à elevação de custos operacionais, aumento das exigências trabalhistas e necessidade crescente de digitalização e ganho de eficiência.

Nesse cenário, mudanças na jornada de trabalho podem acelerar movimentos ligados à automação, reorganização de processos e revisão dos modelos tradicionais de operação.

Automação e digitalização devem ganhar força

Para o advogado trabalhista Pedro Bottesini, a eventual redução da jornada poderá influenciar diretamente o avanço da automação dentro das empresas, especialmente em setores com alta dependência operacional.

“Se houver uma tendência de redução de jornada, temas como automação de tarefas e digitalização de processos provavelmente ganharão ainda mais relevância. Além disso, mudanças na rotina das pessoas podem influenciar hábitos de consumo e abrir espaço para novas demandas, produtos e serviços. Para muitas empresas, esse movimento pode exigir adaptações na oferta, revisão de prioridades e decisões mais estratégicas para ganhar eficiência e competitividade no médio prazo”, avalia.

Segundo o especialista, empresas que já iniciam agora um processo de modernização operacional tendem a ganhar vantagem competitiva caso as mudanças avancem oficialmente.

O debate também abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre produtividade. Especialistas defendem que produtividade não depende exclusivamente da quantidade de horas trabalhadas, mas também da eficiência dos processos, da tecnologia empregada e da organização operacional.

Novos formatos de contratação entram em discussão

No campo jurídico, o possível fim ou flexibilização da escala 6×1 também amplia o debate sobre modelos alternativos de contratação e reorganização das jornadas.

De acordo com Pedro Bottesini, algumas empresas poderão recorrer a contratos de tempo parcial, trabalho intermitente, terceirização e escalas específicas para determinadas funções administrativas e operacionais.

“Algumas operações podem absorver parte dos impactos com contratos de tempo parcial, trabalho intermitente, terceirização ou formatos específicos para determinadas funções administrativas e operacionais. Mas isso exige análise individualizada, porque cada modalidade possui limitações legais, impactos financeiros e riscos próprios”, explica.

Além disso, modelos de escala como 5×2, 12×36 e formatos híbridos devem ganhar espaço nas discussões internas das empresas.

“Dependendo da atividade, pode ser necessário redesenhar jornadas para equilibrar produtividade, operação e custo. Em alguns casos, modelos como 5×2, 12×36 ou escalas híbridas podem passar a fazer mais sentido, sempre considerando a realidade de cada setor e os limites previstos nas convenções coletivas”, afirma Bottesini.

Planejamento antecipado pode reduzir impactos

Os especialistas alertam que deixar o planejamento para a última hora pode gerar impactos financeiros, jurídicos e operacionais significativos. Entre os principais riscos estão aumento de custos trabalhistas, dificuldade para reorganização de equipes, conflitos sindicais e queda de produtividade.

“A discussão não envolve apenas reduzir um dia de trabalho. Existe impacto sobre folha de pagamento, encargos, cobertura de turnos, negociação sindical e manutenção da produtividade. O empresário que se antecipa hoje, com certeza sairá na frente amanhã”, conclui o advogado.

A tendência é que o tema continue ganhando espaço no ambiente empresarial nos próximos meses, especialmente diante das discussões políticas e das transformações no mercado de trabalho impulsionadas por tecnologia, automação e mudanças de comportamento das novas gerações.

Sobre a JM Consultoria

A JM Consultoria foi fundada em 2005 e está sediada em Americana (SP). A empresa atua nas áreas de planejamento estratégico, implementação de processos e acompanhamento de indicadores de desempenho. Ao longo de mais de duas décadas, já atendeu mais de 600 organizações de setores como comércio, indústria e serviços.

A consultoria trabalha com foco em quatro pilares da gestão empresarial: comercial, financeiro, processos e pessoas.

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