Estudo mostra aumento da pressão sobre a rede de saúde e mudança no perfil dos pacientes com TEA
O número de diagnósticos relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) cresceu de forma significativa no Brasil nos últimos quatro anos, refletindo uma mudança importante no cenário da saúde mental e do acompanhamento neurodesenvolvimental no país. Um levantamento inédito realizado pela Memed, em parceria com a NeuroSteps, aponta que a quantidade média de pacientes com TEA atendidos por médico aumentou quase 50% entre 2022 e 2025, evidenciando tanto o avanço da identificação dos casos quanto a pressão crescente sobre a rede assistencial brasileira.
Segundo os dados do estudo, a chamada “densidade diagnóstica”, indicador que mede quantos pacientes com autismo cada médico acompanha anualmente, passou de 9,08 em 2022 para 13,61 em 2025. O crescimento sinaliza um aumento expressivo na busca por avaliação especializada e acompanhamento contínuo, em um momento em que o debate sobre saúde mental, inclusão e neurodiversidade ganha força no país.
Além do aumento no volume de diagnósticos, o estudo revela uma transformação importante no perfil etário dos pacientes. Embora a infância continue concentrando a maior parte dos casos, os diagnósticos estão migrando gradualmente para a idade escolar, adolescência e vida adulta, ampliando a complexidade do cuidado e exigindo uma estrutura mais robusta de acompanhamento multidisciplinar.
Diagnósticos deixam de se concentrar apenas na primeira infância
Historicamente, o TEA esteve associado ao diagnóstico precoce, especialmente na primeira infância. No entanto, o novo levantamento mostra uma mudança relevante nesse padrão. Atualmente, crianças entre 6 e 12 anos representam a maior parcela dos diagnósticos realizados no Brasil, ultrapassando a faixa de 0 a 5 anos.
Os números mostram que a participação de crianças pequenas caiu de 42,17% para 30,13% entre 2022 e 2025. Enquanto isso, a faixa etária de 6 a 12 anos subiu para 35,15%, indicando que muitos casos continuam sendo identificados apenas na idade escolar.
O estudo também evidencia crescimento nos diagnósticos entre adultos. Pessoas entre 20 e 39 anos já representam 17,88% dos pacientes identificados com TEA, enquanto o grupo acima dos 40 anos praticamente dobrou sua participação, alcançando 6,73%.
Para o psicólogo e PhD em Neurociências, além de diretor técnico científico da NeuroSteps, Hiago Melo, esse cenário não significa que o autismo esteja surgindo mais tarde, mas sim que muitos casos passaram anos sem identificação adequada.
“Os sinais do TEA estão presentes desde a primeira infância, mas podem passar despercebidos, especialmente em quadros mais leves. Muitas vezes, as dificuldades só se tornam mais evidentes conforme aumentam as demandas sociais, acadêmicas e profissionais”, explica.
Segundo o especialista, o avanço dos diagnósticos em adultos também está relacionado ao maior acesso à informação e ao aumento da conscientização sobre o transtorno. “Muitas famílias descobrem o diagnóstico de uma criança e, a partir disso, pais e parentes passam a buscar avaliação para si próprios, identificando características que nunca haviam sido compreendidas dentro do espectro”, afirma.
Mulheres adultas passam a aparecer mais nos diagnósticos
Outro dado que chama atenção no levantamento é a mudança na distribuição dos diagnósticos entre homens e mulheres. Durante a infância, os meninos continuam representando a maior parte dos casos diagnosticados, especialmente na faixa de 6 a 12 anos.
Na vida adulta, porém, o cenário começa a mudar. Em 2025, mulheres entre 20 e 39 anos passaram a representar uma parcela maior dos diagnósticos em comparação aos homens da mesma faixa etária. O mesmo comportamento foi observado entre pessoas acima dos 40 anos.
Especialistas apontam que mulheres com TEA frequentemente passam despercebidas durante a infância por apresentarem estratégias de mascaramento social mais sofisticadas, o que pode atrasar significativamente o diagnóstico.
Esse fenômeno vem sendo debatido internacionalmente e reforça a necessidade de protocolos mais sensíveis às diferenças de manifestação do transtorno entre gêneros.
Cresce o uso de medicamentos para tratar comorbidades
O estudo também identificou um avanço importante no uso de medicamentos associados ao tratamento de condições relacionadas ao autismo, especialmente transtornos como TDAH, ansiedade e distúrbios do sono.
As dez substâncias mais prescritas após o diagnóstico de TEA registraram crescimento superior a 70% entre 2024 e 2025. Entre elas, a atomoxetina apresentou aumento acima de 170%, impulsionada principalmente pelo reconhecimento do TDAH como uma das comorbidades mais frequentes entre pessoas autistas.
Apesar disso, especialistas reforçam que o tratamento central do TEA continua baseado em intervenções comportamentais, terapias multidisciplinares e acompanhamento educacional.
“O crescimento do uso de medicamentos está muito mais ligado ao manejo das comorbidades do que ao tratamento do autismo em si. O foco principal continua sendo o suporte terapêutico e educacional individualizado”, explica Hiago Melo.
Cuidado se torna mais complexo ao longo da vida
Os dados da pesquisa mostram ainda que o acompanhamento do TEA tende a se tornar mais complexo com o avanço da idade. Adultos jovens, por exemplo, podem demandar quase o dobro de prescrições médicas em comparação às crianças diagnosticadas.
Esse cenário reforça uma mudança importante na percepção sobre o autismo no Brasil. O transtorno deixa de ser visto apenas como uma condição da infância e passa a exigir políticas públicas, estrutura assistencial e acompanhamento contínuo ao longo de toda a vida adulta.
Para o diretor médico da Memed, Fábio Tabalipa, o levantamento oferece um retrato importante sobre a transformação do cuidado relacionado ao TEA no país.
“O autismo no Brasil é uma história em mudança — e o mais importante é que essa mudança agora pode ser medida. Os dados mostram uma rede médica sob pressão crescente, diagnósticos migrando para novas idades e um arsenal farmacológico cada vez mais sofisticado”, afirma.
Segundo ele, a transparência e a organização dos dados podem ajudar profissionais, gestores públicos e empresas de saúde a compreender melhor a dimensão da demanda atual.
Pressão sobre a saúde e necessidade de estrutura
O avanço dos diagnósticos ocorre em um momento de forte pressão sobre o sistema de saúde brasileiro. O aumento da conscientização sobre o TEA, somado à ampliação do acesso à informação e à redução gradual do estigma, fez crescer a procura por avaliações especializadas em todo o país.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para desafios estruturais relacionados ao acesso a terapias, formação de profissionais, cobertura dos planos de saúde e disponibilidade de equipes multidisciplinares.
A demanda crescente também amplia o debate sobre inclusão escolar, suporte familiar e desenvolvimento de políticas públicas voltadas à neurodiversidade.
Com mais diagnósticos acontecendo fora da infância e um número crescente de adultos buscando acompanhamento, o Brasil passa a enfrentar um novo cenário no cuidado ao TEA, marcado pela necessidade de ampliar a capacidade da rede assistencial e adaptar modelos de atendimento para diferentes fases da vida.
Tecnologia e dados ampliam capacidade de análise
A pesquisa foi desenvolvida a partir dos dados da plataforma da Memed, líder em prescrição digital no Brasil, utilizada mensalmente por mais de 140 mil médicos. A empresa se consolidou nos últimos anos como uma das principais bases estruturadas de informações sobre prática clínica digital no país.
A parceria com a NeuroSteps permitiu analisar padrões relacionados à evolução dos diagnósticos, mudanças demográficas e comportamento terapêutico de pacientes com TEA ao longo dos últimos anos.
Para especialistas, o uso de inteligência de dados aplicada à saúde deve ganhar ainda mais importância na formulação de políticas públicas e no planejamento da rede assistencial nos próximos anos.
Sobre a Memed
A Memed é referência em prescrição digital no Brasil e conecta médicos, pacientes, farmácias e indústria farmacêutica por meio de soluções tecnológicas voltadas à prática clínica digital. A plataforma é utilizada por mais de 140 mil médicos em todo o país.




