A EMS anunciou uma parceria estratégica com a biotech norte-americana miRecule para o codesenvolvimento de terapias baseadas em RNA, com foco inicial no tratamento de doenças raras. A iniciativa marca um novo passo da farmacêutica brasileira na direção de tecnologias de alta complexidade e medicina de precisão, ampliando sua atuação no cenário global de inovação.
O acordo é conduzido por meio da Rio Biopharmaceuticals, responsável por estruturar colaborações com empresas de biotecnologia na fronteira científica. A parceria envolve não apenas investimento, mas participação ativa da EMS no desenvolvimento, produção e viabilização de futuras aplicações clínicas.
Estratégia integra inovação e produção nacional
A iniciativa também reforça o papel do Brasil na cadeia global de desenvolvimento farmacêutico. A execução industrial das terapias passa pela fábrica de peptídeos da EMS, localizada em Hortolândia (SP), inaugurada em 2024.
A unidade é considerada única no país e tem capacidade de produzir até 20 milhões de unidades de medicamentos por ano. Ela integra um plano mais amplo da companhia de internalizar conhecimento e ampliar sua presença em tecnologias avançadas.
Esse movimento está alinhado a investimentos recentes que somam mais de R$ 1,2 bilhão em plataformas de alta complexidade, incluindo a produção de peptídeos, como os análogos de GLP-1, utilizados em tratamentos metabólicos.
RNA abre nova fronteira na medicina
A parceria com a miRecule se baseia em uma tecnologia considerada uma das mais promissoras da medicina moderna: as terapias de RNA.
A biotech utiliza sua plataforma proprietária NAVIgGator™ para desenvolver tratamentos direcionados a alterações genéticas específicas, especialmente em doenças neuromusculares raras. Diferentemente das abordagens tradicionais, essas terapias atuam diretamente no RNA mensageiro, impedindo a produção de proteínas associadas às doenças.
Esse tipo de intervenção permite atacar a causa genética das condições, e não apenas seus sintomas, representando uma mudança estrutural no tratamento de diversas enfermidades.
Durante apresentação da parceria, o CEO da miRecule, Anthony Saleh, destacou o potencial transformador dessa abordagem. Segundo ele, a capacidade de modular a expressão gênica abre caminho para tratar doenças que antes não tinham opções terapêuticas eficazes.
O executivo também ressaltou que avanços recentes têm superado desafios históricos, como a entrega eficiente das moléculas de RNA dentro das células, fator essencial para o sucesso das terapias.
Codesenvolvimento amplia papel da EMS
O acordo entre as empresas vai além de uma parceria tradicional. A EMS participa diretamente do desenvolvimento dos oligonucleotídeos, do desenho das moléculas e da estruturação de novas soluções terapêuticas.
Além disso, a colaboração prevê a possibilidade de condução de ensaios clínicos no Brasil, incluindo estudos iniciais em humanos. Essa estratégia pode acelerar o desenvolvimento dos tratamentos e posicionar o país como um polo relevante em pesquisa clínica.
Segundo Daniel E. Salazar, vice-presidente técnico-científico da EMS e CEO da Rio Biopharmaceuticals, a iniciativa representa uma mudança na forma de atuação da companhia.
“Estamos entrando em uma nova fase da medicina, em que é possível atuar diretamente nos mecanismos do corpo humano. Os oligonucleotídeos permitem modular proteínas associadas às doenças, o que representa um salto relevante na forma de tratar os pacientes”, afirma.
Ele destaca ainda o caráter colaborativo do projeto. “Não se trata apenas de investir ou trazer uma tecnologia pronta. Estamos construindo junto. Participamos do desenvolvimento, do desenho das moléculas e da produção. É uma colaboração científica estruturada, com geração conjunta de conhecimento”, explica.
Brasil ganha protagonismo em inovação
A estratégia da EMS também fortalece o posicionamento do Brasil no cenário global da indústria farmacêutica. Com infraestrutura e capacidade produtiva, o país passa a atuar não apenas como fabricante, mas também como desenvolvedor de tecnologias avançadas.
A possibilidade de conduzir estudos clínicos em território nacional amplia a competitividade e pode acelerar o acesso a novas terapias.
Especialistas do setor avaliam que esse tipo de movimento contribui para reduzir a dependência de tecnologias importadas e estimula o desenvolvimento científico local.
Potencial vai além das doenças raras
Embora o foco inicial da parceria esteja nas doenças raras — também chamadas de doenças órfãs —, o alcance da tecnologia de RNA é muito mais amplo.
As aplicações podem se estender a áreas como doenças neurológicas, imunológicas e até oncologia, abrindo novas possibilidades dentro da medicina de precisão.
Esse avanço acompanha uma tendência global de investimento em terapias inovadoras, que buscam maior eficácia e personalização dos tratamentos.
Tendência global de inovação
As terapias baseadas em RNA têm ganhado destaque nos últimos anos, impulsionadas por avanços tecnológicos e pela necessidade de soluções mais eficazes para doenças complexas.
Nesse contexto, a EMS reforça sua estratégia de inovação ao estabelecer parcerias científicas de alto nível, com foco no codesenvolvimento e na geração de conhecimento.
A iniciativa também busca ganhos de escala e eficiência, além de ampliar o acesso a tratamentos inovadores no futuro.




