Setor amplia uso de inteligência artificial em operações críticas e reforça investimentos em governança, dados e supervisão humana
A inteligência artificial já não é mais uma aposta futura para as administradoras de consórcio. A tecnologia passou a integrar atividades centrais do setor, da leitura de documentos ao atendimento ao cliente, da qualificação comercial às análises preliminares de crédito. Em um ambiente regulado pelo Banco Central, o debate começa a mudar de foco: mais importante do que adotar inteligência artificial é definir como utilizá-la para gerar resultados concretos sem comprometer segurança, governança e qualidade da experiência do cliente.
A transformação acontece em um momento de amadurecimento do mercado brasileiro em relação à inteligência artificial. Embora a adoção da tecnologia avance rapidamente, empresas de diversos setores têm percebido que o diferencial competitivo não está na quantidade de ferramentas implementadas, mas na capacidade de integrá-las aos processos de forma estratégica e sustentável.
No segmento de consórcios, essa realidade já pode ser observada em diversas operações. Ferramentas baseadas em IA ajudam a automatizar tarefas repetitivas, acelerar análises, organizar informações e apoiar equipes em decisões operacionais, permitindo que profissionais concentrem esforços em atividades mais complexas e no relacionamento com os clientes.
Para Caio Gil Augusto, diretor de Tecnologia e Inovação da Unifisa e coordenador-adjunto do Comitê de Inovação da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), a discussão sobre inteligência artificial evoluiu significativamente nos últimos anos.
“As oportunidades não faltam. O importante é ter um bom entendimento do problema, processo e contexto para identificar onde a inteligência artificial realmente gera valor. Se a gente abre muito o leque, gasta energia e não consegue priorizar aquilo que é mais importante”, afirma.
IA já faz parte da rotina operacional
As aplicações mais maduras de inteligência artificial no setor já estão incorporadas ao dia a dia das administradoras.
A tecnologia auxilia na leitura automática de documentos, organização de informações, consultas a bases internas de conhecimento, qualificação de oportunidades comerciais, automação de atendimentos e apoio às análises de crédito. O objetivo é reduzir o tempo gasto com atividades operacionais e aumentar a eficiência das equipes.
Na Unifisa, por exemplo, a estratégia de inovação inclui investimentos contínuos em inteligência artificial, automação e modernização tecnológica.
Entre as metas estabelecidas pela companhia está a aprovação automática de aproximadamente 20% das análises de crédito até o final de 2026. Os primeiros resultados já indicam impactos relevantes na produtividade. Segundo a empresa, o tempo necessário para análise documental caiu de cerca de 20 minutos para apenas cinco minutos, representando uma redução próxima de 75%.
Além da agilidade operacional, a expectativa é que a tecnologia contribua para ampliar a capacidade de atendimento e melhorar a experiência dos clientes.
Dados organizados continuam sendo a base
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, especialistas alertam que a tecnologia não resolve problemas estruturais sozinha.
Para que os sistemas produzam resultados confiáveis, é necessário que as empresas tenham processos organizados, critérios claros e uma base sólida de dados.
“A inteligência artificial potencializa processos que já funcionam bem. Antes da tecnologia, é preciso ter dados organizados, critérios bem definidos e processos estruturados. Sem essa base, dificilmente a IA entrega todo o potencial esperado”, destaca Caio.
Essa visão é reforçada por estudos recentes sobre maturidade digital nas organizações. O relatório State of AI in the Enterprise 2026, elaborado pelo Deloitte AI Institute, aponta que 42% das empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial para promover mudanças estruturais em seus negócios, percentual acima da média global.
No entanto, apenas 27% afirmam possuir modelos considerados maduros para incorporar a tecnologia de forma consistente e escalável.
Os números indicam que muitas organizações ainda enfrentam desafios relacionados à governança, qualidade dos dados e integração dos sistemas.
Laboratórios internos ganham importância
À medida que a inteligência artificial passa a assumir funções mais relevantes dentro das empresas, cresce também a preocupação com segurança, qualidade e previsibilidade dos resultados.
Para lidar com esse cenário, algumas organizações estão criando ambientes específicos para testar e validar soluções antes de sua implementação em larga escala.
Na Unifisa, essa estratégia resultou na criação de um laboratório interno dedicado à experimentação de aplicações de inteligência artificial.
Desenvolvido em parceria com a BondingAI, o ambiente permite avaliar o desempenho das soluções em condições controladas, verificando aderência aos processos internos, regras de negócio, confiabilidade das respostas e qualidade dos resultados antes da entrada em produção.
A iniciativa busca reduzir riscos e garantir que as aplicações estejam alinhadas às exigências regulatórias e operacionais do setor.
Segurança e ambientes privados ganham protagonismo
Outro aspecto que vem ganhando relevância é a utilização de ambientes privados de inteligência artificial.
Diferentemente dos modelos públicos amplamente disponíveis no mercado, as soluções privadas podem ser treinadas utilizando documentos, dados e regras específicas de cada organização.
Essa abordagem permite maior controle sobre as informações processadas e reduz riscos relacionados à exposição de dados sensíveis.
Em setores regulados, como o de consórcios, essa preocupação se torna ainda mais importante devido ao volume de informações financeiras e pessoais envolvidas nas operações.
A adoção de ambientes privados também contribui para aumentar a precisão das respostas e garantir maior aderência às particularidades de cada empresa.
O papel humano continua indispensável
Embora a inteligência artificial avance rapidamente, especialistas defendem que a tecnologia não substitui competências humanas fundamentais.
Empatia, compreensão de contexto, negociação e construção de relacionamentos continuam sendo diferenciais importantes, especialmente em segmentos que lidam diretamente com decisões financeiras e planejamento de vida dos clientes.
Caio Gil Augusto acredita que a maturidade no uso da inteligência artificial não está em automatizar o maior número possível de processos, mas em encontrar o equilíbrio adequado entre tecnologia e interação humana.
“Você consegue ensinar uma máquina a responder perguntas, mas ela nunca vai ter empatia”, afirma.
Segundo ele, a tecnologia deve ser utilizada para fortalecer a experiência do cliente e não para eliminar o contato humano quando ele é necessário.
O executivo lembra que situações delicadas muitas vezes exigem sensibilidade e compreensão que vão além das capacidades atuais dos sistemas automatizados.
“A gente se diferencia de um lado com automação, pela velocidade, mas não pode perder o outro diferencial, que é a oportunidade de falar com o cliente e ter uma relação mais próxima com ele. Se a gente deixar isso de lado, nosso cliente vai sentir que é só mais um”, ressalta.
Capacitação se torna prioridade
A adoção bem-sucedida da inteligência artificial depende também da preparação das equipes.
Levantamento realizado pelo IBM Institute for Business Value (IBV), em parceria com a Oxford Economics, mostra que 83% dos CEOs acreditam que o sucesso da IA está mais relacionado à adoção pelas pessoas do que à tecnologia propriamente dita.
Esse entendimento tem levado empresas a investir em programas de capacitação voltados ao uso responsável da inteligência artificial.
Na Unifisa, as iniciativas incluem workshops, treinamentos e trilhas de aprendizagem que abordam temas como proteção de dados, segurança da informação, boas práticas de utilização e critérios para aplicação da tecnologia em um ambiente regulado.
O objetivo é garantir que colaboradores compreendam não apenas como utilizar as ferramentas, mas também quais são seus limites, responsabilidades e riscos.
Tecnologia como infraestrutura do futuro
A tendência observada por especialistas é que a inteligência artificial deixe gradualmente de ser percebida como uma inovação isolada e passe a funcionar como infraestrutura básica das operações empresariais.
Nesse cenário, a vantagem competitiva estará menos associada à quantidade de ferramentas utilizadas e mais à capacidade de integrá-las de forma eficiente aos processos de negócio.
Para Caio Gil Augusto, o futuro será definido pelas empresas que conseguirem transformar tecnologia em valor real.
“O futuro da inteligência artificial não será definido por quem utiliza mais tecnologia, mas por quem consegue transformá-la em valor real para o negócio”, conclui.
À medida que o setor de consórcios avança nessa jornada, a inteligência artificial deixa de ser apenas um recurso tecnológico para se tornar uma ferramenta estratégica capaz de impulsionar eficiência, melhorar a experiência do cliente e fortalecer a competitividade das empresas em um mercado cada vez mais digital.




