A implementação gradual da reforma tributária brasileira já começa a provocar mudanças práticas dentro das empresas, especialmente na área fiscal e tecnológica. Um dos principais movimentos ocorre por meio da Plataforma da Reforma Tributária, desenvolvida pela Receita Federal em parceria com o Serpro, que permite às companhias anteciparem testes e ajustes operacionais ligados ao novo sistema tributário.
Entre os casos que vêm sendo acompanhados pelo mercado está o da rede varejista C&A, que participou do projeto piloto de apuração da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo criado pela reforma tributária e que entrará em produção definitiva em janeiro de 2027.
A experiência da varejista passou a ser considerada referência pela complexidade operacional da empresa, presença nacional e alto volume de transações processadas diariamente.
Reforma tributária exigirá convivência entre dois sistemas até 2033
A reforma tributária começou oficialmente em 1º de janeiro de 2026, mas a transição será gradual. O novo modelo tributário será implementado até 31 de dezembro de 2032, enquanto o sistema atual continuará coexistindo nesse período. A previsão é de que o novo formato entre plenamente em vigor em janeiro de 2033.
Nesse cenário, empresas de diferentes setores já iniciaram processos de adaptação tecnológica, revisão de fluxos internos e integração de dados fiscais para evitar problemas futuros relacionados à nova estrutura tributária.
O tributarista Lucas Ribeiro, CEO da ROIT, empresa especializada em soluções para a reforma tributária, afirma que a Plataforma da Reforma Tributária já permite avanços importantes nesse processo.
Segundo ele, o ambiente possibilita acesso praticamente em tempo real às notas fiscais emitidas e recebidas pelas empresas, permitindo acompanhar automaticamente créditos, débitos e operações fiscais ligadas à CBS.
“É algo incrível, para a empresa, para o setor produtivo, e para o país”, afirma Ribeiro.
Projeto piloto da CBS antecipa desafios operacionais
O programa piloto da CBS foi criado pela Receita Federal para validar sistemas, fluxos e processos relacionados ao novo tributo antes de sua entrada definitiva em operação.
Cerca de 500 empresas participaram da iniciativa em 2025, testando funcionalidades ligadas à chamada Apuração Assistida da CBS.
Para Lucas Ribeiro, a participação da C&A ganha relevância justamente pela dimensão e complexidade da operação da companhia.
Na prática, a integração à plataforma permite que a empresa acompanhe automaticamente toda a movimentação fiscal, reduzindo riscos de divergências futuras e permitindo ajustes preventivos.
“Só assim é possível identificar situações práticas e corrigir antes de 2027, quando as penalidades serão pesadas para cancelamentos e divergências, sem falar na eventual perda de créditos de CBS”, explica o CEO da ROIT.
Empresas correm para evitar riscos futuros
A adaptação à reforma tributária envolve não apenas mudanças fiscais, mas também profundas transformações tecnológicas e operacionais.
Empresas participantes do piloto já trabalham em:
- Revisão de processos fiscais;
- Integração de sistemas internos;
- Treinamento de equipes;
- Adequação de fornecedores;
- Testes de emissão e recebimento de documentos fiscais;
- Ajustes de compliance tributário.
O objetivo é evitar falhas operacionais quando a CBS começar efetivamente a gerar impactos financeiros e fiscais sobre as operações.
Segundo especialistas, a nova estrutura tributária será altamente integrada digitalmente, aumentando a capacidade de fiscalização automatizada e validação em tempo real das informações fiscais.
C&A destaca ganho operacional e previsibilidade
Para a C&A Brasil, a participação no projeto piloto vai além da adaptação tecnológica e representa uma oportunidade de contribuir diretamente para a construção do novo modelo tributário brasileiro.
O head de Tax e Legal da empresa, Thiago Figo, afirma que a experiência permitiu à companhia avançar de forma concreta na preparação para a reforma.
“Poder participar do piloto foi uma oportunidade de se preparar efetivamente e ajudar a construir o futuro tributário do Brasil, e esse futuro precisa ser simples, previsível e eficiente”, afirmou durante o lançamento da plataforma, em janeiro.
Segundo ele, a colaboração entre empresas e administração tributária será fundamental para garantir estabilidade operacional e reduzir impactos ao consumidor quando o novo sistema estiver totalmente implementado.
Serpro destaca importância dos testes reais
O presidente do Serpro, Wilton Mota, também reforçou a importância da participação das empresas nos testes da Apuração Assistida da CBS.
Segundo ele, a integração de companhias de diferentes setores permite validar regras, fluxos e sistemas em cenários reais de operação, algo que não seria totalmente possível apenas por meio de simulações técnicas.
“É decisiva para garantir uma transição segura, previsível e tecnicamente madura para o novo modelo de tributação sobre o consumo”, destacou.
A expectativa é de que os testes realizados agora permitam reduzir falhas futuras e dar maior previsibilidade ao setor produtivo durante o período de transição tributária.
Digitalização tributária avança no Brasil
A Plataforma da Reforma Tributária também simboliza um avanço da digitalização fiscal no país. O novo modelo amplia integração de dados, automatização de validações e compartilhamento eletrônico de informações entre empresas e órgãos públicos.
Na avaliação de especialistas, o movimento deve acelerar investimentos em tecnologia tributária, compliance fiscal e automação financeira dentro das companhias.
Empresas que conseguirem antecipar processos de adaptação tendem a reduzir riscos operacionais e evitar custos elevados relacionados a erros fiscais, perda de créditos tributários e inconsistências documentais.
Sobre a ROIT
A ROIT é uma empresa brasileira especializada em tecnologia tributária e soluções voltadas à reforma tributária. A companhia atua com inteligência de dados, automação fiscal e gestão tributária para grandes empresas.
Segundo a empresa, sua base de clientes reúne companhias que movimentam mais de R$ 2 trilhões em faturamento anual. Entre os clientes estão marcas como C&A, Carrefour, BRF, Heineken, Azul, Colgate e Bauducco.




