Startup aposta em ‘inteligência climática’ para reduzir impactos das mudanças do clima no agro

A startup brasileira i4sea começou a levar ao campo uma tecnologia de inteligência climática já utilizada em grandes operações portuárias, com o objetivo de ajudar produtores rurais a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. A solução capta dados de estações meteorológicas, radares e sensores diversos, transformando-os em informações hiperlocais — com alcance de até um quilômetro — e previsões que vão de poucas horas até 15 dias, permitindo decisões mais precisas no manejo agrícola.

Fundada em 2015, em Salvador (BA), a i4sea desenvolveu sua tecnologia inicialmente voltada para operações marítimas e de mineração, setores altamente sensíveis às condições climáticas. Atualmente, a ferramenta já é utilizada em portos estratégicos como Santos (SP) e Açu (RJ), além do Porto de Roterdã, na Holanda, considerado o maior da Europa. Empresas como a Vale e empreendimentos de energia eólica offshore também estão entre os usuários da solução.

Agora, a empresa amplia sua atuação para o agronegócio, setor considerado um dos mais vulneráveis às emergências climáticas no Brasil.

Tecnologia amplia previsibilidade no campo

A proposta da i4sea é oferecer previsões mais detalhadas e específicas do que os modelos meteorológicos tradicionais. Ao trabalhar com dados hiperlocais, a tecnologia permite que produtores tenham uma leitura mais precisa das condições climáticas em suas propriedades.

Segundo o cofundador e CEO da empresa, Mateus Lima, essa precisão é fundamental para a tomada de decisões. “Com informações mais assertivas, os operadores conseguem planejar melhor suas atividades, prevenindo riscos e ajustando suas operações no momento certo”, afirma.

No campo, isso pode significar desde a escolha do melhor momento para plantio e colheita até a adoção de medidas preventivas contra eventos extremos, como geadas, secas ou excesso de chuvas.

Agro é altamente dependente do clima

A relevância da solução se torna ainda mais evidente diante do cenário apresentado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). De acordo com a instituição, apenas 5% das áreas agrícolas brasileiras possuem sistemas de irrigação. Isso significa que 95% da produção depende diretamente das chuvas, que têm se tornado cada vez mais irregulares.

Em nota, a Embrapa destaca que “o setor agropecuário é diretamente influenciado por fatores climáticos como chuva, umidade do solo e do ar, ventos, temperatura e radiação solar”. A entidade alerta ainda que as mudanças climáticas têm alterado a frequência e intensidade de eventos extremos, além de impactar o ciclo de pragas e doenças.

Esse contexto aumenta a necessidade de ferramentas que ofereçam previsibilidade e suporte estratégico para o produtor rural.

Decisões no agro exigem visão de longo prazo

Diferentemente de operações portuárias, que demandam decisões imediatas — como interromper ou retomar atividades —, o agronegócio exige planejamento de médio e longo prazo. A escolha da cultura a ser plantada, por exemplo, depende de projeções climáticas mais amplas.

Por isso, a i4sea também trabalha no desenvolvimento de análises que vão além das previsões de curto prazo, oferecendo cenários climáticos que auxiliem decisões estruturais no campo.

“A agricultura demanda uma visão mais estratégica. Não se trata apenas do clima de hoje ou amanhã, mas de tendências que impactam toda a safra”, explica Mateus Lima.

Nordeste ganha protagonismo em inovação

A trajetória da i4sea também reflete um movimento mais amplo de crescimento do ecossistema de inovação no Nordeste brasileiro. Segundo dados do Sebrae Startups Report, cerca de 25% das startups do país estão concentradas na região — ou seja, uma em cada quatro empresas do setor.

Esse avanço tem atraído investidores interessados no potencial econômico e no impacto social dessas iniciativas. Um exemplo é a Lighthouse, casa de investimentos especializada em venture capital com foco no Nordeste.

Em menos de dez anos, a empresa estruturou um fundo com R$ 100 milhões de capital autorizado, voltado para negócios inovadores da região.

Investimento aposta em impacto e inovação

Para a Lighthouse, a i4sea reúne características estratégicas que vão além do retorno financeiro. A empresa aposta no potencial de impacto socioambiental da tecnologia desenvolvida pela startup.

Segundo Gustavo Menezes, sócio da Lighthouse, a solução combina conhecimento científico com inovação tecnológica. “Trata-se de uma solução que concilia conhecimento científico, das áreas de Oceanografia e Climatologia, com inovação tecnológica”, afirma.

Ele destaca ainda que a ferramenta já tem contribuído para aumentar a segurança e a eficiência operacional em portos ao redor do mundo. “Ela tem proporcionado a players dos principais portos do Brasil e do mundo realizarem suas operações, antecipando-se a eventos climáticos. Isso é segurança e eficiência operacional. Com ocorrências climáticas cada vez mais extremas, é uma solução indispensável”.

Caminho para uma agricultura mais resiliente

A entrada da i4sea no agronegócio ocorre em um momento crítico, em que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e imprevisíveis. A combinação de tecnologia, dados e inteligência analítica surge como uma alternativa para reduzir perdas e aumentar a resiliência do setor.

Ao oferecer informações mais precisas e adaptadas à realidade local, a startup busca transformar a forma como produtores lidam com o clima, tornando o planejamento agrícola mais eficiente e sustentável.

A expectativa é que, com a ampliação do uso de tecnologias como essa, o campo brasileiro esteja mais preparado para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, garantindo produtividade e segurança alimentar.

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