Plataforma aposta em inteligência artificial para identificar erros em faturas de frete e evitar perdas que chegam a 0,6% do PIB brasileiro
Os custos invisíveis da logística brasileira podem estar consumindo bilhões de reais das empresas sem que muitos gestores percebam. Cobranças duplicadas, taxas indevidas, erros em tabelas de frete e divergências em documentos fiscais formam um conjunto de falhas operacionais que, segundo levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), representam um impacto equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Diante desse cenário, a logitech emiteaí aposta em tecnologia e inteligência artificial para atacar um problema que afeta empresas de diversos setores: o pagamento de faturas de transporte com valores incorretos. A proposta da companhia é simples na teoria, mas complexa na execução. Em vez de recuperar valores após o pagamento, a plataforma atua antes da liquidação financeira, identificando inconsistências e bloqueando cobranças indevidas ainda na origem.
A estratégia é baseada em um conceito que a empresa chama de “lucro invisível”, ou seja, o ganho financeiro gerado pela eliminação de pagamentos incorretos que normalmente passariam despercebidos dentro da rotina operacional das organizações.
Um problema silencioso que impacta o caixa
A logística é uma das áreas mais sensíveis da operação empresarial. Além do transporte em si, existe uma extensa cadeia de documentos, contratos, tabelas de preços e regras específicas negociadas entre embarcadores e transportadoras.
Em operações de médio e grande porte, é comum que uma empresa trabalhe simultaneamente com dezenas de transportadoras, cada uma com critérios próprios de cobrança baseados em fatores como peso, cubagem, distância percorrida, tipo de carga e prazo de entrega.
Esse volume de informações torna praticamente inviável uma conferência manual detalhada de todas as faturas recebidas.
Segundo Ewerton Caburon, CEO da emiteaí, essa limitação operacional abre espaço para erros que acabam sendo absorvidos pelas empresas.
“Uma média ou grande empresa opera com dezenas de transportadoras ao mesmo tempo. Cada uma tem regras próprias de precificação por peso, cubagem e rotas. Auditar isso manualmente, nota por nota, é impossível. A consequência é direta: as empresas pagam faturas erradas simplesmente porque não conseguem checá-las a tempo”, afirma.
O problema não está necessariamente ligado a fraudes. Em muitos casos, as divergências surgem por falhas operacionais, parametrizações incorretas ou interpretações diferentes dos contratos firmados entre as partes.
Ainda assim, o resultado é o mesmo: custos maiores e redução da margem financeira.
O gargalo dos sistemas tradicionais
Grande parte das empresas brasileiras utiliza sistemas de gestão empresarial (ERPs) e plataformas de gerenciamento de transporte (TMS) para organizar suas operações.
Embora sejam fundamentais para o controle administrativo, esses sistemas foram concebidos principalmente para registrar informações e armazenar históricos de operações.
Na prática, funcionam como repositórios de dados e não como mecanismos de auditoria preventiva.
Segundo Caburon, esse é um dos principais pontos de vulnerabilidade das operações logísticas atuais.
“O ERP tradicional foi desenhado para registrar o passado, não para proteger o caixa no presente. Quando a fatura entra no sistema sem um filtro preditivo, o prejuízo já está contratado. O que fazemos é colocar a inteligência fiscal antes da tesouraria, transformando o software de um mero carimbador de faturas em uma barreira de proteção financeira”, destaca.
Essa mudança de abordagem representa uma transformação importante na gestão logística. Em vez de validar apenas se uma cobrança existe, o objetivo passa a ser verificar se ela está correta antes que qualquer pagamento seja realizado.
Inteligência artificial como auditor fiscal
A solução desenvolvida pela emiteaí utiliza inteligência artificial para realizar o cruzamento automático entre o Conhecimento de Transporte Eletrônico (CT-e) e os parâmetros contratuais previamente cadastrados pelas empresas.
O sistema verifica, em questão de segundos, se os valores cobrados correspondem exatamente às condições acordadas entre embarcador e transportadora.
Caso seja identificada qualquer divergência — mesmo que mínima — a cobrança é sinalizada e bloqueada para revisão.
Esse processo inclui a análise de tarifas, taxas adicionais, cobrança por peso, cubagem, distância e outros critérios específicos definidos em contrato.
O objetivo é eliminar a dependência de auditorias manuais e permitir que a conferência aconteça em escala, mesmo em operações com milhares de documentos processados diariamente.
Para empresas que movimentam grandes volumes de carga, a tecnologia pode representar uma camada adicional de controle financeiro e governança.
Eficiência além da auditoria
A atuação da plataforma não se limita à conferência de faturas.
A empresa também investe na automação de processos fiscais e logísticos, buscando reduzir etapas burocráticas que costumam gerar atrasos na movimentação de mercadorias.
Entre as funcionalidades oferecidas estão a emissão automatizada de documentos fiscais e a liberação de cargas em menos de um minuto.
Em um ambiente em que atrasos operacionais podem impactar toda a cadeia de abastecimento, a agilidade na geração e validação de documentos se torna um diferencial relevante.
Além de reduzir o trabalho manual das equipes, a automação contribui para minimizar erros de preenchimento, retrabalho e inconsistências que poderiam gerar problemas fiscais ou operacionais posteriormente.
O desafio da eficiência logística no Brasil
A logística continua sendo um dos principais desafios para a competitividade das empresas brasileiras.
Custos elevados de transporte, infraestrutura limitada, complexidade tributária e processos burocráticos ainda impactam diretamente a produtividade e a rentabilidade dos negócios.
Nesse contexto, tecnologias voltadas para automação, inteligência de dados e auditoria preventiva ganham cada vez mais espaço.
A busca por eficiência deixou de estar concentrada apenas na negociação de preços mais baixos e passou a incluir mecanismos capazes de garantir que os valores efetivamente pagos correspondam ao que foi contratado.
Segundo Caburon, esse é o verdadeiro potencial das soluções de auditoria automatizada.
“O ganho real de eficiência não está em negociar um frete marginalmente mais barato na ponta, mas em garantir que a empresa só pague o que efetivamente contratou. Auditoria automatizada não é custo; é proteção de margem líquida em tempo real”, finaliza.
À medida que a digitalização avança e o volume de informações cresce, especialistas apontam que o futuro da logística dependerá cada vez mais da capacidade das empresas de transformar dados em decisões rápidas, precisas e financeiramente sustentáveis.
Nesse cenário, impedir perdas antes que elas aconteçam pode ser tão importante quanto aumentar receitas — e talvez seja justamente nesse espaço que esteja o chamado “lucro invisível”.




